Esta aí uma pergunta com uma resposta simples e objetiva — sim. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam 238,2 milhões de cabeças de gado no território brasileiro, 12% a mais do que de seres humano (212,5 milhões). Esse dado levanta a questão da ocupação da área, que, por si só, não é o problema. A controvérsia é que, se por um lado, a pecuária bovina é fundamental para a economia do País, por outro, o impacto da atividade para o meio ambiente tem preocupado cientistas e ativistas em todo o planeta. “É difícil saber o número exato, porque essa população bovina é subestimada”, acredita a economista Cristina Helena Pinto de Mello, professora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Dados da rede de entidades ambientalistas Observatório do Clima mostram que 75% de todas as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) no Brasil são resultantes da agropecuária ou da mudança do uso do solo — ou seja, do desmatamento. “É impressionante, porque quando pensamos na mudança climática global, imaginamos sempre escapamentos de carros e indústrias pesadas. E, em nível mundial, é isso mesmo. Mas é fascinante perceber que, no Brasil, o grosso das emissões é causado pela Agropecuária”, declara o biólogo Mairon Bastos Lima, pesquisador no Instituto Ambiental de Estocolmo (SEI), na Suécia.
O papel da carne bovina na economia brasileira é impressionante. De acordo com os números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), a exportação do produto representou US$ 18 bilhões em 2025, resultado de mais de 3,8 milhões de toneladas vendidas mundo afora, um recorde histórico. “A criação de gado tem um peso enorme na economia brasileira”, reforça o economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Viramos um país exportador de commodities, em um processo de desindustrialização”, completa Cristina.
Um em cada cinco bifes consumidos no planeta tem origem brasileira. “O Brasil ocupa o primeiro lugar no mundo como produtor e como exportador de carne bovina. E tem não só quantidade, como também qualidade. Esse é o peso do produto na atividade econômica nacional, com grande benefício para a produção e a geração de divisas”, observa Cristina. E os dados preliminares deste ano projetam que os números de 2026 devem ser ainda melhores para o mercado.
Na seara ambiental, são dois os principais problemas do boi no pasto. Por um lado, o animal é um grande emissor de metano, gás que contribui negativamente para o aquecimento global. “O principal problema direto é a fermentação entérica, o chamado arroto do boi”, afirma Santos Filho. Citando dados de 2024, ele afirma que o Brasil emite 21 milhões de toneladas de metano por ano, e a pecuária responde pela maior fatia desse total. “Influencia no aquecimento global”, ressalta.
Outro ponto é que as pastagens para a criação de gado são, muitas vezes, responsáveis pelo avanço do desmatamento. Há quem discorde dessa “vilanização”, contudo. “Claro que o desgaste do solo, o desmatamento e a emissão de gases agravam a condição climática, mas não chega perto da emissão de gás carbônico causada por grandes indústrias produtivas”, defende Cristina, citando Estados Unidos e China como exemplos da produção dessa poluição. “Vejo nesse discurso uma intencionalidade de diminuir as exportações brasileiras”, critica.
O pesquisador Lima lembra que apenas na Região Amazônica, a proporção é de três cabeças de gado para cada ser humano. “A questão é que o gado no Brasil nunca foi uma cadeia produtiva como as outras e não é um setor primordialmente voltado para a produção de carne e couro. A principal função da pecuária no Brasil é ser vetor para a aquisição de terra, muitas vezes de maneira ilícita ou violenta”, denuncia. “É por isso que há tamanha quantidade de gado na Amazônia, onde o desmatamento ilegal campeia”, destaca.
Lima argumenta que esse cenário é resultado da falta de esforços para tornar o setor pecuarista realmente mais sustentável. “Se olharmos apenas como cadeia produtiva, não temos a lógica do papel que ele desempenha para a mudança territorial, como ponta de lança para a abertura de novas terras a serem colonizadas pelo Agronegócio”, afirma. Esse fator, explica, dialoga diretamente com o fato de que a maior parte da criação de gado no País é realizada no modelo extensivo.
É difícil saber qual a proporção exata da criação intensiva na produção nacional. Cristina estima que não chegue a 10%. “Não há um censo oficial que consolide os números para podermos fazer a comparação entre os dois formatos”, concorda Santos Filho, da ESPM. Ele calcula que o total do rebanho confinado é de apenas 3%. Mas acrescenta que há nuances. Há pecuaristas que confinam o gado somente na fase final da engorda, por exemplo. “Muitos produzem em sistema misto. Em inúmeros casos, os bois ficam fechados, mas têm o pasto como suplementação de alimentação”, pontua.
Confinar o gado pode ser um caminho, mas está longe de solucionar todos os problemas. “A resposta para o desmatamento causado pela expansão da pecuária quase sempre é a criação intensiva, mas isso no Brasil é uma miragem”, critica Lima. “Há décadas o confinamento é apontado como solução para aumentar a produtividade e evitar o desmatamento, mas a realidade é que a pecuária nunca deixou de ser o seu principal vetor, porque o seu papel central é a abertura de novas áreas, não a produção de carne”, resume.
Na visão de Lima, a criação intensiva permitiria uma produção livre de desmatamento, ao mesmo tempo que se poderia controlar melhor as emissões de metano, outro grande impacto ambiental da pecuária. Entretanto, o modelo não está livre de problemas, a começar por questões éticas e de bem-estar animal. “É a redução de um animal a uma vida confinada como fonte de proteína. É quase distópico, muitas sociedades não aceitam mais. Questões de bem-estar animal ganham muita tração no Brasil, então, não vejo a criação intensiva como uma bandeira que se sustente”, opina.
Segundo Cristina, embora o método intensivo cause, supostamente, menos impacto ambiental e seja economicamente mais produtivo, exige mais investimentos e eleva riscos sanitários, como a proliferação da doença da vaca louca, entre outros. “A criação extensiva deixa o gado mais saudável”, enfatiza.
Não há solução fácil, mas avança a consciência sobre os dilemas que envolvem a pecuária. “O pior arranjo tende a ser a pecuária extensiva de baixa produtividade sobre uma pastagem degradada”, avalia Santos Filho, que vê nesse cenário o principal desafio da atividade no Brasil. É nessa conjuntura que a pecuária acaba por exigir mais extensão de terra por quilo de carne produzido, pressionando a busca por novas áreas e elevando a emissão de gases por cabeça de gado.