Fator medo

24 de março de 2026

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Embora o Brasil tenha registrado queda nos homicídios e outros crimes violentos nos últimos anos, a segurança pública continua sendo a principal preocupação no País. Em uma pesquisa recente, os entrevistados classificaram o tema como questão crucial para as eleições deste ano, acima da saúde e da economia. E essa ansiedade, silenciosamente, impulsiona um setor em plena expansão.

Quando se trata de criar o sentimento de medo na sociedade, há muitas direções para apontar o dedo. A cobertura jornalística da criminalidade alimenta esse temor; as redes sociais amplificam-no; os políticos, quando lhes convém, inflamam-no. Mas essa ansiedade não é meramente fabricada, porque o País há muito convive com um dos piores índices de violência urbana do mundo — vivido, especialmente, nas grandes cidades.

A realidade de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro alimenta o sentimento de insegurança o crime organizado domina bairros inteiros, a brutalidade policial é queixa constante e a ameaça diária de roubo de celulares e assaltos tornou-se cotidiana na vida urbana.

Nesse contexto, as vendas de carros blindados atingiram um recorde no Brasil no ano passado — mais de 42,8 mil veículos —, um aumento de 25% em relação a 2024, segundo a Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin). O mercado movimenta, atualmente, cerca de R$ 3,5 bilhões por ano.

Marino Ferreira Maciel, vice-presidente do Conselho Deliberativo da Abrablin, atribui o crescimento a dois fatores: uma sensação generalizada de insegurança entre os brasileiros e um mercado que se consolidou ao longo do tempo. “Os clientes que utilizam carros à prova de balas dificilmente voltarão a ter carros comuns. Eles estão sempre investindo em veículos novos, então o número continua crescendo”, afirma.

De fábrica

As montadoras brasileiras mobilizam-se para atender a essa demanda. Nos últimos cinco anos, diversos fabricantes firmaram parcerias diretas com empresas de blindagem, oferecendo a proteção balística como parte do processo de compra, em vez de um serviço adicional. A Volvo foi além da maioria — sua subsidiária brasileira trabalha com uma empresa local de blindagem para proteger veículos destinados a compradores em outros países, transformando o Brasil em um polo de exportação para o setor.

O Brasil é o maior mercado mundial de veículos blindados. O México ocupa o segundo lugar, blindando cerca de 25% dos carros por ano — mas a natureza da demanda difere consideravelmente. Os compradores mexicanos tendem a buscar proteção robusta contra o armamento de uso militar usado pelas organizações do narcotráfico. No Brasil, o foco é a proteção contra revólveres e pistolas, armas utilizadas por criminosos de rua.

Indivíduos ricos e agências de aplicação da lei continuam sendo a principal clientela do setor, mas um mercado secundário de veículos blindados usados começou a atrair compradores de faixas de renda mais baixas, relata Maciel.

Blindar um carro custa entre R$ 80 mil e R$ 150 mil, dependendo do modelo e dos materiais — muitas vezes mais do que o próprio carro vale. Os avanços tecnológicos tornaram o processo menos invasivo e diminuíram o peso adicional ao veículo, mas pouco contribuíram para a redução do preço final.

O problema mais urgente do setor não é cliente, mas a escassez de mão de obra qualificada. “Como o mercado cresceu rapidamente, a qualificação da força de trabalho não acompanhou o ritmo”, pontua Maciel, da Abrablin. 

Além da blindagem

O crescimento da indústria de carros blindados acompanha um mercado mais amplo — o da segurança privada. O Brasil tem um contingente de seguranças privados registrados maior que o de policiais.

Em maio de 2025, havia 571.158 agentes de segurança pública em atividade em todo o País, 10% a mais do que no ano anterior, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Juntas, as forças militares e policiais civis contavam com aproximadamente 500 mil agentes em 2024.

O crescimento econômico desempenhou um papel importante. Uma economia em expansão traz mais lojas de varejo, mais eventos de grande porte e mais demanda por seguranças nas portarias. Mas o fator mais significativo foi uma ampla reforma legislativa promulgada em 2024, que reescreveu as regras do setor pela primeira vez desde a década de 1980.

A nova legislação ampliou o leque de atividades em que empresas de segurança privada podem operar legalmente, adicionando monitoramento eletrônico e segurança de eventos à lista. Também tornou mais rigorosos os requisitos para empresas que desejam entrar nesse mercado, exigindo registro completo na Polícia Federal e treinamentos mais longos e rigorosos para os vigilantes.

“Desde 2020, muitas empresas reestruturaram-se para cumprir a nova legislação”, conta Jeferson Nazário, presidente da Federação Nacional de Empresas de Segurança, Vigilância e Transporte de Valores (Fenavist), assegurando que há espaço para o setor crescer ainda mais. “Ainda temos a possibilidade de dobrar o número de vigilantes ativos registrados, uma vez que cerca de um milhão foram treinados”, aponta.

Empresas que operam sem registro ou suas contratantes estão sujeitas a multas, mas a plena aplicação da lei ainda é difícil. Regulamentos importantes que ainda aguardam publicação pelo Ministério da Justiça deixaram partes da legislação em uma espécie de limbo jurídico, e a Polícia Federal, responsável pela fiscalização do setor, ainda não tem capacidade para monitorar o cumprimento das normas em larga escala, segundo Nazário.

Cerca de 4,7 mil empresas são autorizadas pela Polícia Federal a prestar serviços de segurança, mas a maioria dos vigilantes em atividade trabalha para um pequeno número de grandes conglomerados, explica Nazário. Cerca de 2,8 mil dessas empresas são firmas de segurança dedicadas, contratadas por meio de terceirização; as demais são empresas de outros setores (como indústria, varejo e saúde) que têm suas próprias equipes de segurança internas.

Público e privado

O setor público é o maior cliente individual de serviços de segurança privada no Brasil. Os bancos também ocupam uma posição de destaque, em parte porque são obrigados por lei a ter pessoal de segurança. Os hospitais também se tornaram um mercado significativo e crescente, após uma onda de incidentes violentos durante a pandemia de covid-19, que levou muitos a expandirem suas equipes de segurança.

E a tecnologia está remodelando o setor ao mesmo tempo que o expande. Sistemas de vigilância integrados, como câmeras, plataformas de monitoramento e ferramentas de resposta remota, estão gerando novas receitas em todo o setor, e Nazário reconhece que isso reduz, simultaneamente, a necessidade de guardas humanos em campo.

A legislação que fundamentou o setor levou quase uma década para ser aprovada, e o atraso teve consequências. Durante esse período, o Brasil deparou-se repetidamente com atos de violência cometidos por seguranças privados, muitas vezes trabalhando para empresas não registradas que operam fora de qualquer fiscalização. O caso mais flagrante ocorreu em 2020, quando seguranças de um supermercado Carrefour em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, espancaram um homem negro até a morte. O assassinato gerou indignação nacional e ajudou a impulsionar a legislação. A lei final inclui penalidades explícitas para o racismo e outras formas de discriminação.

O caso Carrefour também expôs outra fragilidade na segurança brasileira: um dos seguranças envolvidos era membro ativo da Polícia Militar do Rio Grande do Sul, trabalhando como segurança em seu horário de folga, prática comum Brasil afora. O bico tornou-se uma fonte não oficial, mas amplamente aceita, de renda extra para policiais, mesmo que suas funções públicas exijam legalmente dedicação em tempo integral.

Como parte de um decreto regulatório futuro, o governo federal considera impor multas a policiais que exercerem atividades extras, mas, por enquanto, a regulamentação da prática está a cargo dos governos estaduais.

A publicação deste conteúdo é fruto de parceria entre a Revista Problemas Brasileiros e o portal The Brazilian Report. Acesse aqui o material original, em inglês.

The Brazilian Report Débora Faria
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