Quando é hora de desligar?

06 de janeiro de 2026

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A tecnologia encurta distâncias, agiliza processos e torna a vida mais prática, mas a ilusão de um mundo de possibilidades a apenas um clique pode estar drenando o tempo das pessoas. Muitas vezes, é assim que a lista de afazeres se acumula, enquanto a rolagem infinita se dá na tela. O começo de um novo ano é um dos momentos para promessas que, em geral, incluem ações para melhorar a qualidade de vida. E, dentre a lista de desejos, ganha força a vontade — e necessidade — de mais tempo livre.

No contexto atual de alta produtividade e conexão, os números mostram que o Brasil vive uma crise silenciosa e estrutural — a do tempo. Brasileiros de todas as idades, classes sociais e geografias sentem o peso da rotina atropelada. Um estudo recente da Balt Consultoria mostra que o esgotamento coletivo não é apenas percepção, mas um fenômeno mensurável que já está reconfigurando o consumo, a sociabilidade e até o significado de bem-estar.

Lucas Fraga, cofundador da Balt, opina que a falta de tempo é uma dor antiga da humanidade, que vem ganhando relevância e se tornou o zeitgeist [termo alemão que significa “espírito do tempo”da atualidade — especialmente pela aceleração que a tecnologia traz. “Essa sensação atinge praticamente todos. Entrevistamos uma aposentada que acorda às 11h e conta que lhe falta tempo para tudo o que precisa fazer. E um estudante adolescente, que vive em uma cidade do interior, de 2 mil habitantes, também diz sentir que está sem tempo”, observa, citando alguns dos entrevistados na pesquisa Fragmentos do Efêmero.

Dentre os ouvidos no estudo, 72% dizem que “está difícil dar conta de tudo”. No entanto, embora a impressão de que falta tempo seja democrática, a realidade das horas atinge as pessoas de forma diferente, já que as obrigações da rotina recaem com mais peso sobre alguns grupos. “Para a sensação, não importa idade, gênero, ou classe social. Mas, na prática, as mulheres têm jornadas duplas ou triplas, pois são elas que cuidam da casa e dos filhos. E a classe média baixa das grandes metrópoles chega a passar, diariamente, mais de quatro horas no trânsito, compara Fraga.

Outro achado importante é que o uso do celular, sobretudo acessar as redes sociais, está engolindo o tempo de ócio e tédio. Não fazer nada virou rolar feeds e qualquer atividade que não seja produtiva acarreta culpa. “As pessoas sentem que deveriam estar fazendo mais com o seu tempo. A sociedade cobra produtividade, temos de estar sempre fazendo ou aprendendo e até o lazer precisa ser produtivo”, pontua o consultor.

A culpa do descanso

Por que aceitamos entrar nesse jogo antinatural? Em parte, porque nosso cérebro foi configurado pela evolução para agirmos como os demais da nossa comunidade. “Estar sempre atarefado dá sensação de pertencimento. No nosso ambiente, sentimos que somos úteis e bons por estarmos com a agenda cheia”, pontua o neurocientista William Borghetti, fundador do Instituto Brasileiro de Neurocomunicação (Ibranec).

Nosso cérebro é o mesmo dos seres humanos de milhares de anos atrás. A duração dos dias e anos também é a mesma. Contudo, a tecnologia permite que façamos mais. “Quando D. Pedro I viajou do Rio de Janeiro para São Paulo, onde declarou a Independência, a viagem levou 17 dias. Era o esperado, o mais rápido possível. Hoje, posso acordar em São Paulo, ter uma reunião no Rio e voltar a tempo de dormir em São Paulo. Se eu pedir para um cliente carioca 17 dias, ele não vai achar razoável”, exemplifica o neurocientista sobre a diferença no giro do tempo ao longo dos séculos.

Viver no imediatismo significa permanecer em estado de prontidão constante, o que provoca estresse, prejudica o sono e as saúdes física e mental. Para produzir bem, é preciso saber desligar — sobretudo quando é necessário produzir algo novo, inédito, criativo, porque é justamente nos momentos em que as obrigações saem do foco que se ativa a chamada rede de modo padrão do cérebro. “Nós criamos quando paramos de procurar soluções e ficamos divagando. O cérebro mantém-se ativo o tempo todo, mesmo quando estamos dormindo ou deitados no sofá olhando para o teto. E é só quando se para de pensar nas tarefas imediatas que se abre espaço para o que não foi pensando antes”, sustenta Borghetti.

Tempo de trabalho, tempo de prazer

Antes mesmo de a neurociência comprovar que o cérebro trabalha melhor quando tem períodos de descanso ativo, o sociólogo italiano Domenico de Masi advogava a favor do “ócio criativo”. Em seu livro O ócio criativo, lançado há 25 anos no Brasil, ele defende que momentos de lazer tornavam as pessoas mais produtivas. “O conceito de ócio em italiano não é “não fazer nada”, mas fazer alguma coisa cuja única finalidade é ter prazer”, explica Eugênio Mussak, professor de Educação Corporativa e Recursos Humanos na Fundação Instituto de Administração (FIA).

Numa tentativa de promover esse tempo de prazer dentro do expediente — com o objetivo de aumentar a produtividade —, existem empresas que passaram a oferecer formas de diversão em suas instalações. No entanto, segundo Mussak, são medidas de efeito limitado. “Colocar uma mesa de pingue-pongue vai ajudar quem gosta de pingue-pongue, mas as pessoas são felizes por diferentes motivos”, afirma. 

Portanto, mais valioso seria que os empregadores evitassem a infelicidade. “Se o que motiva a felicidade varia, já há clareza sobre o que torna um trabalhador infeliz: metas exageradas e ambientes de tensão. O melhor é investir em lideranças bem preparadas, que promovam relações humanas de qualidade”, recomenda o professor. E deixar que cada um busque o que fazer em seus momentos de ócio.

Nesse sentido, não se trata apenas de mais tempo, mas de saber o que fazer com o tempo que se tem. “Por que vamos ter tempo livre? Para ter outro trabalho? Para cuidar da casa? Não. O tempo livre deve ser para algo que dê prazer. Pode até ser cuidar da casa, desde que isso seja prazeroso para a pessoa”, aponta Mussak.

Como o tempo é um bem limitado, sempre será preciso fazer escolhas. Entra nessa conta tanto uma agenda bem organizada quanto o autoconhecimento, pois é o que direcionará escolhas mais conscientes. “O mundo livre é uma maravilha, porque nos dá a oportunidade de fazer escolhas. Mas as escolhas pressupõem renúncias. Como usar bem o tempo que se tem? Há demandas que não serão possíveis”, questiona Mussak.

Calma possível

Segundo Fraga, da Balt, a cada tendência, nasce uma contratendência. A cada dor, a humanidade não se conforma e busca remédios. Ao reconhecer que o excesso de cobranças imediatistas tem deixado todos exaustos, muitos encontram formas de desacelerar e desligar, cada um à sua maneira. “Há muita gente procurando momentos de contemplação, atividades desconectadas, meditação. Estão voltando à moda atividades como crochê, quebra-cabeças. A Lego lança muitas coleções com foco nos 30+”, elenca. Essa busca comprova que é possível construir uma sociedade mais saudável. “A estafa pela falta de tempo tem solução”, acredita.

A própria tecnologia, quase sempre vista como vilã, pode ser aliada. “Não dá para imaginar que vamos viver sem agenda, sem alarme, mas podemos usar o sistema contra o sistema — fechar um horário na agenda para relaxamento, colocar um alarme no celular para um tempo sem usar o celular”, sugere o neurocientista Borghetti. São medidas realistas e possíveis, mesmo que não para todos.

Desde a Grécia Antiga o tempo é fonte de angústia e prazer. Na mitologia grega, Chronos é um velho implacável que devora os próprios filhos. Mas não só. Os gregos também tinham Kairós, o deus do tempo oportuno, retratado como um jovem nu com asas nos pés e nos ombros, uma figura para representar que a experiência temporal não é marcada somente pelos minutos no relógio ou dias do calendário.

Contudo, para poder desfrutar do tempo, deve-se aceitar a própria incapacidade de controlá-lo. “Kairós ajuda-nos a aproveitar o momento, a fazer a escolha de usar bem o tempo, nosso patrimônio mais caro”, finaliza o professor Mussak.

Luciana Alvarez
Débora Faria
Luciana Alvarez
Débora Faria