Em festas, bares ou encontros de amigos, uma mudança silenciosa começa a aparecer: cada vez mais jovens não bebem nada alcóolico. Não é só impressão. Entre brasileiros de 18 a 24 anos, a taxa de abstenção saltou de 46% para 64% em apenas dois anos, segundo o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa). É o mesmo porcentual da população geral que não consome álcool, mas o crescimento da sobriedade avança de forma mais rápida entre os mais novos.
A tendência não é brasileira. Lá fora, os jovens também bebem cada vez menos. Nos Estados Unidos, apenas metade das pessoas de 18 a 34 anos dizem consumir álcool, segundo a consultoria global Gallup. Há duas décadas, 72% delas bebiam.
A juventude parece ter entendido algo sabido, mas nem sempre óbvio: o álcool faz mal à saúde. E os dados ajudam a explicar a virada. Há dez anos, 19% das pessoas acreditavam que beber podia ser benéfico para o corpo — hoje, são só 6%. No mesmo período, mais que dobrou a parcela dos que reconhecem os danos do álcool, passando de 26% para 53%.
“Há algo genuíno nessa geração. Os jovens estão muito mais preocupados com a saúde mental do que a minha geração, por exemplo. Sabemos que o álcool piora a ansiedade, atrapalha o sono e afeta o rendimento nos estudos, daí o movimento chamado sobriedade curiosa. E penso que não é uma moda passageira”, constata Paulo Carrano, coordenador do Grupo de Pesquisa Observatório Jovem do Rio de Janeiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Nessa toada, a Indústria reinventa-se para não ficar para trás — a aposta é no brinde zero álcool. De acordo com dados da consultoria IWSR, o mercado de bebidas sem álcool cresceu cerca de 9% no ano passado. “A Indústria está se adaptando a uma nova realidade de jovens que bebem menos, fumam menos e buscam bem-estar. As famílias vão muito por preço, sobretudo as classes D e E. Mas a classe C, pelo seu tamanho, tem dinheiro para mudar hábitos e definir o mercado pelo volume”, avalia o economista Guilherme Dietze, presidente do Conselho de Turismo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).
“Vemos, por exemplo, as festas noturnas. Há uma redução de pessoas nesses lugares, em festas que duravam até de manhã. E os serviços ampliam-se para outras modalidades: bares com outros tipos de bebida, com ofertas mais saudáveis. É uma adaptação — alguns fecham porque não mudam, enquanto outros aproveitam as possibilidades”, completa Dietze. E avalia ainda que, como um todo, a economia não perde, justamente por essa readaptação de modelos de negócios e novas oportunidades. “Talvez menos gente vá para uma balada gastar R$ 200 ou R$ 300, mas vá gastar em outro lugar, porque vai continuar saindo”, pontua.
No entanto, não é só as saúdes mental e física que redefinem os hábitos etílicos. Há outros fatores por trás dessas novas escolhas, que diferem em cada pedaço do Brasil, com recortes de classe, raça e gênero.
Não há um só Brasil, e os dados deixam isso claro. Embora o consumo de álcool tenha caído de forma geral, a sobriedade avança mais rápido entre jovens com mais escolaridade e renda. Segundo o Cisa, a taxa de abstenção cresceu mais nas classes A e B, passando de 44% para 55%. Contudo, nas classes C, D e E, o aumento foi bem mais tímido, de cerca de 6% nos últimos dois anos.
As diferenças aparecem também na forma de beber. O consumo excessivo, de sete ou mais doses por ocasião, é mais frequente nas regiões Norte e Centro-Oeste, onde os indicadores de risco seguem mais altos. “A abstenção foi mais forte no Sudeste do que em outras regiões. Isto é, fatores culturais, informação e desigualdades regionais e educacionais ainda determinam muito quem corre mais risco”, aponta Carrano. “Hoje gasta-se mais com itens essenciais. O lazer noturno encareceu e o álcool pode ser deixado de lado. Mas isso também pode gerar um risco adicional: o do consumo de bebidas de baixa qualidade e de procedência duvidosa”, destaca.
Apesar do aumento do custo de vida, o economista Marcelo Neri, diretor da FGV Social, não acredita que o fator econômico seja determinante. Nos últimos anos, a renda média do brasileiro cresceu, de R$ 1,3 mil, em 2023, para R$ 1,6 mil, em 2024, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E mais: segundo pesquisa da FGV Social, a renda real do trabalhador aumentou 16,5% nos últimos três anos. “O que acontece é uma mudança de hábitos, porque as pessoas estão expostas a uma maior oferta de bens e serviços. O desejo de consumo está subindo e o salário real também. Tenho uma visão mais positiva. Está surgindo uma nova geração “nem-nem” — não fuma, nem bebe —, mais preocupada com a saúde. Essa juventude é bem mais educada do que as gerações anteriores”, aposta Neri.
Mais do que reduzir o consumo, parte dos jovens simplesmente não vê sentido em beber. Uma pesquisa da MindMiners, com 3 mil brasileiros da geração Z, mostra que 58% não têm interesse em álcool, enquanto 34% dizem não gostar do sabor.
Um dos motivos, segundo uma pesquisa sueca, é que o álcool deixou de ser um “lubrificante social”; esse papel passou a ser das redes sociais, com as interações fortalecendo-se no ambiente virtual. E, nesse mesmo caminho tecnológico, os jovens evitam passar dos limites pelo medo da exposição.
Além disso, “os jovens estão encontrando novas maneiras de performar maturidade e masculinidade, que não passam pela resistência física ao álcool”, indica o estudo. Dentre as outras razões relatadas pela MindMiners, aparecem preocupação com a saúde mental (30%), com a saúde física (19%) e a influência da religião (17%).
E, nesse caminho da sobriedade, o Brasil tem se tornado cada vez mais evangélico, cujos adeptos, em geral, têm posições mais conservadoras quanto ao consumo de álcool. Dados do último censo do IBGE indicam que 1 a cada 4 brasileiros declara-se evangélico, com avanço mais acelerado entre os mais jovens, principalmente na faixa de 10 a 14 anos.
De acordo com pesquisa de 2010 do Cisa, pessoas que frequentam atividades religiosas semanalmente têm metade da chance de consumir álcool, de beber em excesso e de desenvolver abuso ou dependência em comparação com quem não frequenta. Entre evangélicos e protestantes, esse risco é ainda menor do que entre católicos.
“Não existe uma relação de causa e efeito, embora seja um fator importante. Em nossas conversas com jovens da periferia, a religião sempre aparece como um freio ao álcool”, ressalta Carrano, da UFF. “E isso acontece em todas as religiões, inclusive as de matriz africana, como candomblé e umbanda. O consumo excessivo pelos praticantes, fora do contexto dos rituais, é frequentemente tabu e desencorajado pelos zeladores dos terreiros”, explica.
A redução do consumo de álcool pela juventude convive com outros movimentos, tampouco saudáveis. Dados recentes mostram, por exemplo, um aumento do uso de antidepressivos. Profissionais da geração Z (aqueles nascidos entre 1997 e 2012) e os Millennials (1982 a 1996) são os que mais usam medicamentos para saúde mental, especialmente antidepressivos e ansiolíticos, segundo levantamento feito pela Vidalink, empresa de planos corporativos de bem-estar. “Isso pode ter relação com a redução do consumo alcoólico, mas ainda é preciso mais estudos. Os dados podem indicar uma correlação forte, não necessariamente causal. Mas é uma das hipóteses. Muitos jovens estão trocando o álcool por medicamentos para ansiedade e depressão”, observa Carrano.
E não são somente os medicamentos psiquiátricos que estão em alta entre os jovens — e entre toda a população. Os remédios para perda de peso, como as canetas emagrecedoras, viraram febre, por causa da redução dos preços e também da pressão estética imposta pelas redes sociais.
Um estudo científico publicado na revista Frontiers in Psychology indica que a exposição a imagens de “corpos ideais” aumenta a insatisfação com a própria aparência. Outros trabalhos apontam que o uso intenso dessas redes está associado a uma maior comparação social e a comportamentos de controle do corpo.
Essa exposição acerta os brasileiros em cheio, principalmente os jovens. Não à toa, o mercado dessas canetas cresceu 88% no ano passado, e a previsão é que movimente quase R$ 20 bilhões neste ano, o dobro em relação a 2025. O efeito vai além da perda de peso. Pacientes que usam esses medicamentos relatam redução do apetite e, também, do consumo de álcool — o que, de toda forma, entra em conflito com rotinas voltadas para o emagrecimento.