Os brasileiros se policiam cada vez mais sobre o que compartilham em aplicativos de comunicação, como WhatsApp e Telegram, e evitam entrar em discussões políticas. Por outro lado, mantêm-se em grupos criados por campanhas eleitorais e recorrem a publicações no status desses aplicativos como meio de manifestar suas preferências.
Os dados, que indicam um amadurecimento no uso político do WhatsApp e do Telegram, são da quinta edição da pesquisa Os Vetores da Comunicação Política em Aplicativos de Mensagem: Hábitos e Percepções de Brasileiros, realizada pelo InternetLab e pela Rede Conhecimento Social, divulgada para a imprensa pela Agência BORI.
Os pesquisadores entrevistaram 3.113 pessoas — maiores de 16 anos e usuárias de aplicativos de mensagens — nas cinco regiões do Brasil, entre 20 de novembro e 10 de dezembro de 2024. Os resultados foram analisados a partir de uma metodologia mista (qualitativa e quantitativa), ao passo que os respondentes foram segmentados por idade, gênero, cor/raça, classe social, escolaridade, região, tamanho do município, religião e posicionamento político autodeclarado. A margem de erro é de 3 pontos porcentuais (p.p.).
Segundo os autores, os grupos de apoio a candidatos ou partidos servem como canais de mobilização online e offline. “Existe um refinamento dessa estratégia de grupos por parte tanto de apoiadores quanto de campanhas”, afirma Heloisa Massaro, diretora de Pesquisas e Operações do InternetLab. Metade das pessoas declara que os grupos continuaram ativos após as eleições de 2024, servindo tanto para os candidatos manterem contato com os eleitores quanto para os participantes acompanharem as ações dos políticos.
Dentre os participantes de grupos que falam sobre política, destacam-se homens, pessoas com ensino superior, moradores de capitais e de classe mais alta. No recorte de gênero, observa-se que as mulheres são as que mais temem participar de debates políticos e demonstram mais preocupação com o que dizem nos grupos. Os homens sentem-se mais à vontade para expressar opiniões políticas.
A pesquisa também aponta que o status do WhatsApp funciona como uma ferramenta incorporada ao cotidiano: 90% dos usuários consumiram e 76% publicaram conteúdos no recurso. Mais da metade utilizou-o para acompanhar e/ou postar sobre política. Segundo o relatório, a preferência pelo status deve-se ao seu caráter menos invasivo. “Há uma auto-organização do cidadão votante. Se ele não puder se posicionar politicamente por causa do seu trabalho, ele pode tirar uma foto usando a camiseta da cor associada ao candidato e postar no status”, avalia Marisa Villi, diretora-executiva da Rede Conhecimento Social, que promove a construção participativa de conhecimento.
Essa estratégia política de comunicação digital deve permanecer nas eleições de 2026, com o importante acréscimo da Inteligência Artificial (IA) como ferramenta para a produção de conteúdo. O estudo aponta que 50% dos respondentes já usavam a IA da Meta no WhatsApp, lançada dois meses antes das entrevistas, e os mais jovens foram os principais entusiastas, com uma taxa de 62% de utilização entre os que têm de 16 a 19 anos.
O relatório ainda destaca o aumento, em 2024, do número de pessoas que admitem ter repassado notícias sem checar a fonte (41%), quebrando a tendência de queda observada desde 2022. “Existe uma consciência generalizada de que fake news é má e o correto é fazer a checagem da informação antes de repassar, mas temos dois gargalos. Um que é como fazer com que as pessoas apurem o que recebem, mesmo que tenha sido enviado por uma pessoa de confiança; outro, ainda mais desafiador, é como garantir que as fontes de confirmação sejam de fato confiáveis”, adverte Marisa.
A escolha entre WhatsApp e Telegram varia conforme o objetivo da comunicação, segundo a pesquisa. Enquanto o primeiro é visto como um aplicativo de comunicação com pessoas conhecidas — família, amigos, colegas de trabalho, grupos religiosos e de moradores do bairro —, o segundo é um espaço para interação por afinidades e assuntos de interesse.
A diferença reflete-se nos tipos de grupos que predominam em cada plataforma. No WhatsApp, os grupos de família (54%) e amigos (53%) lideram; no Telegram, grupos de notícias (23%), promoções (23%) e jogos (20%) são tão relevantes como os de amigos (27%) e de trabalho (23%). O autopoliciamento no WhatsApp contrasta com o uso mais livre no Telegram, percebido como espaço de mais liberdade para acompanhar conteúdos.
A pesquisa também traz tendências em relação à dinâmica de participação. Edições anteriores mostraram que havia uma saturação de interações virtuais e a consequente saída de grupos, a maioria deles no WhatsApp. Nessa edição, o estudo aponta que a diminuição resultou em uma curadoria mais cuidadosa, voltada para a preservação da qualidade das interações, com depoimentos de pessoas que reataram laços familiares antes rompidos.
Em comparação com 2022, ano de eleição presidencial, houve uma queda no recebimento e no compartilhamento de conteúdos eleitorais em 2024, marcado pelas eleições municipais. A comparação com 2020, também ano de eleições municipais, aponta que há uma queda independentemente do tipo de eleição. De acordo com os autores, o movimento reforça a tese de que os usuários estão mais contidos e segmentando os espaços para discussão política, com participação mais “nichada” em grupos de interesses particulares.