A era dos drones

20 de maio de 2026

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A violência geopolítica dos últimos anos deu aos drones um destaque inesperado e um tanto negativo: equipamentos relativamente baratos capazes de provocar grandes estragos. Em outros contextos, porém, é a versatilidade desses objetos voadores que chama a atenção. Esses equipamentos oferecem métodos rápidos e eficientes de coleta de dados e entrega de insumos em atividades como agricultura, produção cinematográfica, topografia, logística e segurança pública.

Segundo o relatório anual da consultoria Drone Industry Insights (DII), o mapeamento e o levantamento topográfico continuam a ser os principais usos dos drones não militares (35%), seguidos por inspeção (26%) e por fotografia e filmagem (18%). Cresce também a participação em atividades como pulverização na agricultura (7%), entregas de encomendas e produtos (7%) e localização e rastreamento em operações de resgate (5%).

No Brasil, o mapeamento topográfico por drones já é um mercado importante, mas ainda faltam profissionais preparados para fazê-lo, aponta Sergio Vicente Denser Pamboukian, professor de Engenharia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Piloto de drone tem aos montes — pessoas que sobem o equipamento e fazem filmagens. Mas, para o mapeamento topográfico, é preciso uma rota automatizada, um distanciamento específico entre as fotos, manutenção da altitude e execução do processamento adequado para gerar o modelo. Para esse tipo de trabalho, falta pessoal qualificado”, afirma o professor, que coordena o Laboratório de Geotecnologias da instituição.

Quando bem utilizados, os drones reduzem custos, melhoram a qualidade dos processos e trazem agilidade. “O mapeamento do relevo de um terreno que levaria uma semana, com três ou quatro pessoas envolvidas, pode ser resolvido com um voo de 15 minutos”, calcula Pamboukian. Em situações específicas, o método tradicional ainda vai se manter, mas os contextos em que os drones levam vantagem são crescentes. Nas inspeções da construção civil, um drone com câmera termográfica pode encontrar pontos de infiltração ou descolamento de revestimento em fachadas de edifícios, por exemplo, algo que dificilmente seria identificado com outras técnicas, exemplifica.

Em 2025, de acordo com o levantamento da DII, o principal motivo para a utilização dessas aeronaves foi “poupar tempo”, seguido por “melhoria da qualidade”. Esse dado marca uma mudança em relação ao ano anterior, quando “melhorar a segurança no trabalho” era o motivo principal. E, pelo terceiro ano consecutivo, “obstáculos regulatórios” foram a maior preocupação de quem usa ou produz esses aparelhos em todo o mundo.

Gargalo regulatório

Por ser uma tecnologia nova e emergente, o marco legal é um nó que ainda precisa ser desatado. No Brasil, uma nova norma vai entrar em vigor no dia 10 de julho, determinando que drones de todos os portes devem ser registrados na Agência Nacional da Aviação Civil (Anac), assim como os pilotos vão precisar obter uma licença, algo semelhante ao emplacamento de carros e à carteira de habilitação. “Um drone pode derrubar um avião, um helicóptero. Cada voo deve ser autorizado. O Brasil precisa de mais conscientização”, observa Pamboukian.

Algo que ainda falta no Brasil é a possibilidade de se usar drones para a entrega de encomendas e cargas. “O mundo dispõe dessa tecnologia, que ajuda muito em obras, no carregamento de itens pesados durante a construção. Aqui, no País, não há porque a lei proíbe o transporte de carga por drones. Uma pena, porque traria mais produtividade”, avalia Felipe Calixto Reis, instrutor e coordenador técnico do Instituto de Tecnologia Aeronáutica Remotamente Controlada (Itarc), uma escola de operação de drones em atuação desde 2013. Esses equipamentos são como caminhões aéreos, ou aviões de carga não tripulados. O aparelho chinês Changying-8 aguenta mais de 3 toneladas e voa distâncias de até 3 mil quilômetros.

Cada setor, um efeito

Do ponto de vista tecnológico, o uso de materiais leves e baterias de longa duração tem prolongado o tempo de voo dos drones. E a integração com tecnologias como a Inteligência Artificial (IA) e a de redes móveis 5G também amplia usos com mais eficiência. Na prática, há aparelhos cada vez menores e com pilotagem mais intuitiva. “A indústria entrega tudo como plug and play: você tira da caixa e logo consegue colocar para funcionar”, explica Reis. Os modelos menores são os mais usados para captação de imagens, completa.

Apesar de ser de fácil operação no modo mais automático, o instrutor garante que, para se sobressair no mercado de captação de imagens, vale a pena aprender técnicas e desenvolver um olhar exclusivo. “Quem fizer somente o básico não vai se destacar. Para os profissionais, é interessante que tragam sua personalidade, sua humanidade para as imagens”, ensina.

No Brasil, o setor Agropecuário é um dos grandes beneficiários dos constantes aprimoramentos dos aparelhos. Na agricultura, o uso começou por volta de 2015 para mapeamento das lavouras em alta definição, marcação de linhas para o maquinário e detecção de ervas daninhas, conta Thatiana Miloso, diretora comercial da XMobots, empresa que produz drones e oferece soluções para o uso no contexto brasileiro. Com o amadurecimento da tecnologia, vieram as aeronaves de pulverização. “Em 2022, eles realmente entraram com força no Brasil. Antes, tinham capacidade de 10 litros; hoje, já são 100 litros. E podem carregar defensivos ou sementes”, completa.

Estima-se que o mercado de drones comerciais movimentou US$ 12,8 bilhões em 2025 e deve crescer 10% ao ano até 2034. A produção desses equipamentos é dominada pela China, que detém entre 70% e 90% desse mercado, dados que variam de acordo com a fonte. Estados Unidos, França, Índia e Turquia também despontam como importantes produtores, mas, quando se trata da agricultura, quem entrega o estado da arte são os chineses. “O que a gente faz localmente é criar um sistema para a operação dos drones da DJI, a maior produtora do mundo, porque tem todo um aparato necessário, como o gerador, o misturador. Garantimos a logística e a operação”, explica Thatiana.

A defesa também é uma aplicação importante dos drones no Brasil. Eles vigiam fronteiras e monitoram comunidades indígenas sob ameaça de invasão, além de contribuir para buscas e salvamentos no mar e em áreas de mata fechada.

O avanço tecnológico levou os drones também para a segurança pública, com usos que vão da contagem de multidões à vigilância e ao rastreamento de suspeitos. “Já existem drones que, durante o voo, numa imagem, conseguem contar quantas pessoas estão num local, ou quantos carros”, cita o coronel Jorge Vargas, fundador e CEO da T4 Drones, que oferece treinamentos diversos, incluindo para policiais. Segundo ele, em breve, esses equipamentos serão indispensáveis a todas as forças policiais, também como forma de proteger os soldados.

Vargas aponta que é nos setores críticos que o mercado se abre para possibilidades de produção que rivalizem com os equipamentos chineses. “Na pandemia de covid-19, a China detinha 75% dos insumos hospitalares mundiais. Se o país não tivesse exportado mais respiradores, a tragédia teria sido pior”, lembra. Agora, na sua opinião, os governos estão começando a abrir os olhos e a incentivar localmente novas tecnologias.

Luciana Alvarez
Débora Faria
Luciana Alvarez
Débora Faria