A situação econômica de Cuba é dramática, sendo preciso reconhecer que a necessidade de envio de ajuda ao país deixou de ser um caso ideológico para se tornar uma questão humanitária. Até o momento, na América Latina, somente a mexicana Claudia Sheinbaum enfrentou o cerco imposto pelos norte-americanos, com o envio de mais de 800 toneladas em ajuda alimentar. A sua decisão de manter o fornecimento de petróleo ao país para substituir a demanda — antes atendida pela Venezuela — sofreu recuo em decorrência do decreto da Casa Branca que prevê a imposição de tarifas àqueles países que vendam petróleo a Havana. De acordo com Donald Trump, Cuba representa uma “influência maligna”, uma “ameaça excepcional”.
Os demais países da região, especialmente os aliados ideológicos do governo cubano, têm mantido silêncio sobre o cerco dos Estados Unidos e a gravidade da situação econômica, com 89% da sua população em extrema pobreza. Gustavo Petro, presidente da Colômbia, foi beneficiado por doações de vacinas cubanas, em 2025, porém ainda não retribuiu o feito. Lula, que sempre teceu críticas contundentes ao embargo dos Estados Unidos, tardou muito para enviar ajuda alimentar e optou por não lidar com a barreira imposta no petróleo, apesar de ser um dos países com maior produção de combustível na região.
É de amplo conhecimento público que a “asfixia” promovida pelos Estados Unidos busca atender aos interesses de diversos atores privados do Estado da Flórida, muitos deles exilados políticos, que vislumbram as oportunidades imobiliárias do país com o desenvolvimento do Turismo. Contudo, a população cubana sabe que não pode haver “saudade” dos tempos idos. Cuba pré-revolucionária era sinônimo de pobreza, iletramento e acesso escasso à saúde. Hoje, ainda que a situação seja calamitosa, as ameaças norte-americanas permanecem sem capacidade de desestabilizar o regime de Miguel Díaz-Canel. Afinal, o país segue exportando vacinas, médicos e tecnologias relevantes.
Nesse contexto, a ausência de uma resposta coordenada da América Latina revela uma inflexão histórica na própria diplomacia regional. Em outros momentos, a solidariedade hemisférica foi um dos pilares da atuação brasileira, sem haver o receio de se tensionarem as relações com a potência continental. Um exemplo disso é quando o Brasil articulou uma resistência contra o projeto da Área de Livre Comércio da América (ALCA). Outro é quando o país liderou a criação da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) para fortalecer a cooperação institucional e estabelecer uma voz comum, declarando apoio à reaproximação norte-americana com Cuba, em 2016.
Atualmente, há uma desarticulação entre os governos da região, que, incentivados pela polarização, enfraqueceram os mecanismos de ação coletiva, com o desmantelamento da UNASUL e as redes de solidariedade latinas. Sem uma liderança regional capaz de articular uma iniciativa diplomática consistente contra a radicalização do embargo norte-americano, Cuba permanece abandonada à própria sorte, assim como está o seu antigo aliado local: a Venezuela.
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