Envelhecer no espectro

30 de março de 2026

A

A sociedade tem avançado na inclusão de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), mas a invisibilidade persiste entre os mais velhos. Há um enorme contingente de pessoas que cresceram em uma época em que os diagnósticos eram raros, em geral reservados aos casos severos. No Brasil, 306.836 idosos receberam diagnóstico de TEA em algum momento da vida, segundo uma pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Os pesquisadores da área, no entanto, acreditam que o número não dá a real dimensão da quantidade de pessoas que passam a vida toda sem terem sua neurodivergência reconhecida oficialmente.

Para Ivan Aprahamian, diretor científico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), é difícil calcular, ainda que por aproximação, qual seria o número real de idosos com TEA, até porque os diagnósticos são mais complexos nessa fase da vida. “Adultos idosos têm trajetórias ricas e longevas, o que torna difícil estimar detalhes do neurodesenvolvimento, trajetória escolar e sintomas dos primeiros anos da adolescência e vida adulta”, explica Aprahamian. E essas particularidades são fundamentais para o diagnóstico de TEA. “Outro aspecto riquíssimo seria a história de pais e professores, o que é inviável para os idosos”, observa.

Ainda que o cálculo não dê conta da realidade, a existência de quase 307 mil idosos com TEA foi trazida ao conhecimento público somente no ano passado, graças à pesquisa da geriatra Uiara Raiana Ribeiro, professora na PUC-PR, usando dados do Censo Demográfico de 2022. O número indica uma prevalência de 0,86%. “Sabemos que uma parte expressiva não recebeu diagnóstico, então esse número não pode ser interpretado de forma absoluta. Ainda assim, é importante, porque é um dado que ninguém tinha visto antes”, pontua. No total, o Censo identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA, o que corresponde a 1,2% da população. Entre os grupos etários, o de maior prevalência é o de cinco a nove anos, com 2,6%.

Uiara conta que o desejo de olhar para esse grupo — e de jogar luz para que todos vejam e reconheçam sua existência — veio de sua própria vivência. Seu marido é neurodivergente, com diagnóstico, e seu pai provavelmente tem TEA, sem diagnóstico. Ela sabe, tanto por experiência profissional quanto pela pessoal, que passar a vida sem um diagnóstico formal resulta em falta de acesso a serviços de saúde e de apoio apropriado, assim como em dificuldade de relacionamento familiar, e consequentemente, isolamento social. “Ao longo da vida, às vezes as pessoas vão sendo taxadas de maneiras preconceituosas e acabam se isolando. Elas vão envelhecendo sem compreender suas próprias necessidades”, pontua a geriatra.

O tempo como desafio 

Identificar o TEA na população idosa é especialmente desafiador, pois algumas manifestações do transtorno podem ser confundidas com outras condições, como depressão e demência. “No TEA, nem sempre a pessoa tem percepção de que seus comportamentos são diferentes, então uma parte do diagnóstico refere-se a indivíduos que convivem com ela. Encontrar esses relatos de convivência fica mais complexo com os idosos”, afirma Uiara.

Por ser uma questão no neurodesenvolvimento, há sinais que ficam claros na infância, mas que podem se perder ao longo do tempo. “Meus tios contam que minha avó dizia que meu pai só começou a falar aos três anos de idade”, cita Uiara sobre pontos que costumam ser importantes para o diagnóstico e acabam dependendo de histórias mais distantes e, portanto, imprecisas.

O TEA sozinho não compromete a saúde, mas pessoas com TEA acabam tendo uma saúde pior por falta de acompanhamento adequado. Estudos internacionais indicam redução na expectativa de vida, além de maior incidência de ansiedade, depressão e quadros demenciais. “Se esse indivíduo tem dificuldade de comunicação, pode ter o acesso à saúde dificultado. Sem contar o sofrimento mental que vem da exclusão social e agrava outros problemas”, destaca Uiara.

Por isso, quem dá assistência a idosos deve ter um olhar atento a camadas sobrepostas para além das queixas esperadas para a idade, principalmente se há questões psiquiátricas envolvidas. “Nessa etapa da vida, os transtornos do neurodesenvolvimento são claramente relevantes na história natural de doenças neuropsiquiátricas comuns na terceira idade. Cabe ao médico ou profissional de saúde assistente pensar nesses quadros mediante suspeita de alguma condição de neurodivergência que possa influenciar a queixa atual. Raramente teremos queixas relacionadas puramente a características de TEA na terceira idade, pois aquela pessoa está muito adaptada”, explica Aprahamian, da SBGG.

A adaptação que ocorre ao longo da vida não significa que o idoso com TEA possa prescindir de tratamentos e suportes especiais, em geral oferecidos por equipes multidisciplinares. “O espectro de TEA é rico e, se pensarmos em estados mais importantes, com prejuízo social mais acentuado, talvez outros profissionais da área da saúde mental sejam necessários. Temos muitos desafios na terceira idade que exigem resiliência psicossocial”, ressalta o especialista.

Os serviços de geriatria, contudo, ainda carecem de protocolos específicos para idosos autistas. O despreparo pode levar a situações críticas, como, por exemplo, num pronto-socorro a pessoa com TEA entrar em sobrecarga sensorial diante do ambiente hiperestimulante, mas seu comportamento ser interpretado como delirante. Em 2024, pela primeira vez o tema do autismo na velhice entrou na pauta do Conselho Nacional de Saúde — a ideia é desenvolver protocolos de atendimento humanizado para idosos com TEA nas unidades de saúde.

Somatória e sobrecarga

Muitas das questões decorrentes do autismo são semelhantes às de outras neurodivergências, até porque o TEA costuma fazer fronteira com algumas delas, como no caso do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Altas Habilidades e Superdotação, segundo o psiquiatra Alexandre Valverde. “A arquitetura neuronal é diferente nessas pessoas. Seus comportamentos têm a ver com um hiperfuncionamento sensorial e uma devolutiva também em excesso. Situações simples para quem é neurotípico geram sobrecarga nos neurodivergentes e fazem com que a pessoa se extenue”, aponta.

Ao longo da vida, o acúmulo de sobrecarga pode fazer com que a pessoa evite progressivamente a socialização ou situações que a tirem da rotina. Valverde conta que os diagnósticos de pessoas mais velhas muitas vezes surgem após uma crise de esgotamento.

As dificuldades de identificar o TEA atingiram o próprio médico, que só teve seu diagnóstico aos 42 anos — hoje ele tem 46. “Além de TEA, também tenho superdotação, o que me dá, por um lado, uma flexibilidade cognitiva enorme. Meu pensamento é rápido, então falo muito rápido também. Mas, ao longo da vida, de tanto as pessoas acharem que estou bravo, ou ansioso, fui aprendendo que tenho de me adequar e falar devagar”, relata Valverde. Dessa forma, os traços típicos do autismo foram mascarados.

Com o tempo, pessoas com TEA desenvolvem artifícios para camuflar as manifestações do transtorno, o que não acontece de forma intencional ou dissimulada. Ainda assim, esse comportamento cobra um preço emocionalmente alto. Evitar contato visual, algo que costuma ser associado ao TEA, pode ser mascarado por algumas pessoas. 

“Olhar nos olhos traz tanta informação que a pessoa prefere evitar. Mas, de tanto ouvir que quem não olha nos olhos não é confiável, ou está mentindo, ela aprende que tem que olhar. Ao mesmo tempo, fica pensando que não pode olhar demais, porque os outros estranham. Conta os segundos que olha nos olhos, os segundos que deixa de olhar, quantos segundo olha pela segunda vez. Essa ação calculada, e não intuitiva, acaba virando um inferno até para ir à padaria”, revela o psiquiatra. “O colapso emocional autista pode facilmente ser confundido com crise de ansiedade”, adverte Valverde. Isto é, um neurodivergente pode facilmente ser enquadrado como alguém com outra questão psiquiátrica, o que leva a tratamentos inadequados.

O alívio do diagnóstico

Em novembro do ano passado foi sancionada uma lei que incentiva o diagnóstico do TEA em adultos e idosos, com o objetivo de ampliar o acesso ao processo de identificação do transtorno para além da infância. Essa nova lei altera as diretrizes da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, que até então priorizava a identificação do TEA em crianças.

Por lei, quem recebe o diagnóstico de TEA tem direito a uma Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea), que garante prioridade no atendimento e no acesso aos serviços públicos e privados, em especial nas áreas de saúde, educação e assistência social. Para idosos, que já têm atendimento prioritário por lei, pode parecer apenas um detalhe, mas o documento ajuda os atendentes a entenderem que aquela pessoa requer um acolhimento diferente.

Há ainda outras proteções legais no País. É o caso da Lei Brasileira de Inclusão (LBI), que diz que pessoas com deficiência, incluindo autistas, têm direito a uma vida independente e à participação comunitária em igualdade de condições e sem discriminações. O autismo, como as demais neurodivergências, não é uma doença a ser curada — é uma condição que faz parte da diversidade humana. O que a sociedade precisa fazer é eliminar as barreiras que excluem essas pessoas. A maior parte dos obstáculos para quem vive com TEA é produzida pelo ambiente, como ruído, rotinas imprevisíveis, comunicação ambígua, e por atitudes excludentes, como os estigmas, a infantilização e o descrédito.

Para Valverde, contudo, a principal vantagem de receber um diagnóstico não é legal, mas de amor próprio. “A pessoa passa a vida inteira sentindo-se inadequada e, de repente, tem um momento eureca, em que consegue se entender, se perdoar. Ela pode, então, focar no seu potencial em vez de focar no que falta”, enfatiza.

Há ainda questões práticas — ao conhecer e identificar os gatilhos, é possível evitar colapsos por excesso de barulho, de temperatura e de interações. E também pode evitar relacionamentos abusivos. “Todos os meus pacientes com TEA já estiveram em algum relacionamento abusivo, pode ser com um chefe, com um amigo, ou com um parceiro romântico. São presas fáceis, porque não percebem a maldade, os sarcasmos”, atesta Valverde.

Luciana Alvarez
Débora Faria
Luciana Alvarez
Débora Faria