“Quem é essa mulher/Que canta sempre esse estribilho/Só queria embalar meu filho/Que mora na escuridão do mar.” Essa mulher, imortalizada na música Angélica, de Chico Buarque e Miltinho, foi a mais estridente voz a ecoar pelo mundo contra os crimes da ditadura militar brasileira, embora não fosse uma militante política.
Durante cinco anos, entre 1971 e 1976, Zuzu Angel usou a projeção internacional alcançada por seu trabalho como estilista para denunciar um regime que “torturava e matava jovens estudantes”, como afirmou pelo microfone de bordo, arrebatado das mãos de uma aeromoça, durante um voo procedente dos Estados Unidos. Nesse país, dossiês sobre a morte de seu filho, dado como desaparecido político, foram por ela entregues ao então secretário de Estado, Henry Kissinger, e ao senador Edward Kennedy.
Como Antígona, personagem da tragédia grega de Sófocles, ela queria ao menos um corpo para enterrar. Essa busca chegou ao fim na madrugada de 14 de abril de 1976, há 50 anos, quando o automóvel que dirigia foi intencionalmente abalroado e capotou na Estrada da Gávea, no Rio de Janeiro, na saída de um túnel que hoje leva o seu nome.
A morte violenta, causada pelo Estado, consta da certidão de óbito retificada em 2025 para apagar a farsa veiculada na época de que ela cochilara na direção, causando o acidente. Semanas antes, temendo o pior diante das constantes ameaças que recebia, entregou um bilhete a Chico e a outros amigos: “Se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”.
Zuleika de Souza Netto nasceu em 5 de junho de 1921, no seio de uma família humilde em Curvelo, interior de Minas Gerais. Na infância, ao ajudar a mãe em costuras para fora, criava roupas de bonecas com retalhos. Já famosa, mas fiel às origens, dizia: “Quando me chamam de costureira para me diminuir, não me atingem. Até prefiro. Sou costureira e com muito orgulho”.
Em Salvador, na Bahia, onde morou na juventude, absorveu a influência da cultura afro-brasileira e das cores quentes da capital baiana, marcantes em seu futuro trabalho. Em 1943, casou-se com o norte-americano Norman Angel Jones, com quem teve três filhos — o primogênito Stuart, a futura jornalista Hildegard e a caçula Ana Cristina.
Nos anos 1950, fixou-se no Rio de Janeiro, trabalhou em ateliês de moda e aos poucos começou a desenhar e costurar roupas para familiares e amigos. Na década seguinte, já separada do marido e sob o nome artístico de Zuzu Angel, monta em sua casa, no bairro de Ipanema, a Zuzu Saias.
Primeira estilista a popularizar no Brasil o termo fashion designer, foi pioneira em utilizar materiais, mitos e símbolos de temas regionais e do folclore, além de elementos da história nordestina, como Lampião e Maria Bonita. Exibia tecidos estampados com motivos de pássaros, borboletas e papagaios, ornados com fragmentos de bambu, pedras e conchas. “A moda brasileira só pode ser internacional se for legítima” era o seu lema.
Transformada em etiqueta da alta sociedade carioca, promovia desfiles, aparecia na imprensa e, logo, tornou-se grande demais para o incipiente mercado nacional de moda. Suas criações chegaram aos Estados Unidos, onde conquistaram clientes famosas, como as atrizes Kim Novak e Joan Crawford.
Estava no auge de uma carreira vitoriosa quando, em 14 de maio de 1971, seu mundo de renda, seda, fitas e chitas começou a se desfazer. Naquele dia, Stuart Edgard Angel Jones, estudante de Economia de 26 anos e integrante do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8), foi sequestrado e nunca mais visto.
Conforme se soube depois, por meio de uma carta do também militante Alex Polari, no mesmo dia de sua prisão, jamais admitida formalmente, o filho de Zuzu foi barbaramente torturado e morto por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa), na Base Aérea do Galeão, na capital fluminense. Arrastado por um jipe com a boca no cano de descarga, morreu por inalação de gases tóxicos. Seu corpo, nunca encontrado, foi possivelmente lançado ao mar de um helicóptero.
A partir desse dia, a mãe amargurada e mulher ferida de morte, que jamais se preocupara com política, tornou-se símbolo de coragem e resistência contra a ditadura, razão pela qual seu nome está inscrito, desde 2017, no Livro de Aço dos heróis e heroínas nacionais, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília.
A ousadia de Zuzu não tinha limites. Driblava seguranças, como a de Kissinger e a do general Mark Clark, comandante das tropas aliadas na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, para quem também entregou um dossiê no Hotel Sheraton, no Rio de Janeiro. Apelava a celebridades, políticos e militares, como fez com o general Ernesto Geisel, procurado em seu apartamento no bairro carioca do Leblon, em 1973, antes de ele assumir a Presidência da República.
Usou seu ofício e alcance internacional para protestar. Apresentou criações nas quais apareciam pássaros engaiolados, meninos aprisionados e anjos ensanguentados, remetendo o público ao que se passava nos porões do regime. Um desses desfiles de denúncias ocorreu em pleno consulado brasileiro em Nova York, pegando diplomatas e funcionários de surpresa.
Essa persistência, aliada ao fato de que Stuart tinha nacionalidade norte-americana, resultou em manchetes de jornais mundo afora. “Designer de moda pede pelo filho desaparecido”, estampou o jornal canadense The Montreal Star. “A mensagem política de Zuzu está nas suas roupas”, ecoou o jornal norte-americano Chicago Tribune. De fora para dentro, rompia-se o silêncio ao qual a imprensa brasileira estava submetida pela mordaça da censura.
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade obteve de Cláudio Guerra, ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Espírito Santo — agente da repressão condenado por crimes como ocultação de cadáveres —, a confirmação da participação de Freddie Perdigão Pereira, coronel do Exército, na morte de Zuzu, identificado por Guerra em fotografia tirada logo após o desastre que vitimou a estilista.
O resgate da luta e do martírio daquela que “só queria agasalhar meu anjo, e deixar seu corpo descansar”, como plasmado nos versos de Chico Buarque, também está presente em filme e livro biográfico. Em 2006, o cineasta Sérgio Rezende dirigiu Zuzu Angel, com Patrícia Pillar no papel principal. Quem é essa mulher: uma biografia de Zuzu Angel (Todavia), de Virginia Siqueira Starling, lançado em novembro de 2025, completa o retrato comovente de uma mulher que desafiou o poder em nome da verdade e da memória.