O Brasil é mesmo o país do futebol?

24 de junho de 2026

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Não é preciso nem de clima de Copa do Mundo para ficar bem claro que o futebol tem, sim, a preferência esmagadora dos brasileiros. Ao contrário da maior parte dos países, por aqui há uma monocultura esportiva, com a hegemonia do ludopédio. Já escrevia o dramaturgo Nelson Rodrigues (1912–1980), aliás: “Para o bem e para o mal, vivemos na pátria em chuteiras”.

No âmbito da percepção geral, essa certeza vem dos papos de boteco, das provocações entre torcedores rivais e da onipresença do esporte nas programações televisivas. Mas dados objetivos ratificam o cenário.

No ano passado, por exemplo, um levantamento realizado pela empresa Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, encomendada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), concluiu que 78% dos brasileiros torcem para algum clube de futebol — e 73% acompanham, de alguma forma, os resultados das partidas. “Estamos falando de um esporte que faz parte do dia a dia da maioria das pessoas”, opina o especialista em marketing esportivo Marcelo Paganini de Toledo, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP).

A mesma pesquisa também apontou que 75% dos brasileiros consideram o futebol algo importante em suas vidas. “Os dados mostram que o futebol vai muito além do entretenimento”, avalia Toledo. “Está nas conversas entre amigos, nas reuniões de família, nos bares e até nas rivalidades saudáveis entre colegas de trabalho” O professor acredita que, a partir desses números, fica claro que esse esporte “continua sendo um dos principais símbolos da cultura brasileira e uma das maiores paixões nacionais”.

Um século de hegemonia

Nem sempre foi assim, é verdade. Até cerca de cem anos atrás, o brasileiro gostava mesmo era de turfe e de remo. “Também havia o couro, antigo jogo de bola, e o tênis, com muito menos fãs”, afirma Toledo.

Segundo o historiador Marcel Tonini, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador no Centro de Referência do Futebol Brasileiro, do Museu do Futebol (CRFB), o esporte despontou como favorito nos anos 1920 e 1930. Foi naquele período que se popularizou, com a entrada mais frequente de praticantes populares no futebol oficial, a criação de uma imprensa esportiva especializada e a eleição do esporte pela ditadura varguista como uma de nossas identidades nacionais.

Tonini acredita que um marco desse fenômeno tenha sido a conquista brasileira do Campeonato Sul-Americano de Futebol, em 1919, realizado no Rio de Janeiro, a então capital brasileira. Na época, houve “grande cobertura” da mídia e “frenesi social”. Gradualmente, o turfe e o remo foram perdendo relevância. O historiador contextualiza: o primeiro, marcado pela presença de animais, era ligado ao mundo agrário que passava a ser visto como “antigo”; o remo, por sua vez, era atrelado ao “estilo de vida mais urbano e burguês”.

O futebol acabou se convertendo em síntese da experiência coletiva, com ampla participação popular. Mas não só. Tonini enfatiza a facilidade em praticá-lo. “Pode ser jogado em muitos terrenos e qualquer objeto pode ocupar o lugar da bola”, destaca. Houve uma boa ajuda das emissoras de rádio, que logo passaram a incluir transmissões de partidas em suas grades de programação. E até mesmo o fato de que bater uma bola se tornou atividade presente nos contextos operários. “Muitas fábricas e empresas, dos mais variados setores, incentivaram e adotaram a prática entre seus empregados”, pontua Tonini.

Toledo, da ESPM, avalia que a preferência dos brasileiros pelo futebol pode ser explicada por vários fatores. Em primeiro lugar, é um esporte extremamente acessível, que pode ser praticado praticamente em qualquer lugar, por qualquer número de pessoas e com bolas e campos improvisados. “O acesso sempre foi muito fácil. Além disso, o futebol sempre teve a capacidade de unir pessoas de diferentes classes sociais, regiões e origens. Afinal, todos nós somos torcedores de algum time”, afirma.

Outro aspecto importante é a forte identificação com os clubes, algo que se enraizou profundamente no nosso dia a dia e nas conversas com familiares, amigos e colegas, completa o professor. “Com o passar do tempo, o futebol também se transformou em um símbolo da identidade nacional e em uma fonte de orgulho para os brasileiros, principalmente após a conquista dos cinco títulos mundiais”, acrescenta.

Ídolos dos gramados

Com o tempo, o futebol tornou-se também uma verdadeira fábrica de ídolos. O que, segundo Toledo, contribuiu para fortalecer a paixão do brasileiro. “Hoje, faz parte da cultura e está presente não apenas no esporte, mas também na música, na literatura e em diversos aspectos da nossa vida”, reforça.

O professor da ESPM lembra, ainda, que o futebol se destaca porque aprendeu a contar histórias. “Rivalidades, títulos, derrotas, grandes jogos e ídolos ajudaram a criar uma conexão emocional muito forte desse esporte com as pessoas. O torcedor não acompanha apenas uma partida, acompanha uma história da qual se sente parte”, completa Toledo.

Além disso, trata-se de um esporte que se adaptou à própria evolução da mídia. Se, antes, estava nas ondas do rádio, depois passou a fazer parte indissociável da televisão. Agora, é consumido de forma sistemática no YouTube, nas redes sociais e em todas as plataformas digitais.

Edison Veiga
Débora Faria
Edison Veiga
Débora Faria