Brasileiros influentes

15 de janeiro de 2026

C

Cientistas são cada vez mais cobrados para que suas pesquisas tenham impacto direto na sociedade. Agora, isso já é mensurável: 107 pesquisadores brasileiros estão entre os mais citados em documentos que embasam tomadas de decisão mundo afora. Os dados são de um relatório inédito, fruto da parceria entre a Agência BORI de divulgação científica e a Overton, maior plataforma internacional dedicada a mapear a interface entre ciência e políticas públicas. O documento foi publicado no fim de outubro.

Para chegar à lista, a BORI e a Overton identificaram pesquisadoras e pesquisadores brasileiros mencionados em documentos estratégicos, relatórios técnicos e pareceres usados por governos, organismos internacionais e organizações da sociedade civil, cada um com pelo menos 150 citações. Assim, foram mapeados 107 cientistas. O levantamento mostra que a produção desses pesquisadores embasou mais de 33,5 mil documentos de políticas públicas publicados desde 2019. Quase um quarto dos nomes (22) é da Universidade de São Paulo (USP).

Os cinco pesquisadores mais influentes nas tomadas de decisão são da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e da USP. Na ordem: Cesar Victora (UFPel), Carlos Monteiro (USP), Aluisio J. D. Barros (UFPel), Paulo Saldiva (USP) e Pedro Hallal (UFPel). Todos atuam na saúde, ou na intersecção entre saúde e ambiente, e somam mais de 5,5 mil citações em documentos ligados a decisões públicas.

Victora, professor emérito na UFPel, que lidera a lista, afirma que embasar e direcionar políticas públicas é o “mais alto reconhecimento que um cientista pode receber da sociedade”. Segundo ele, “somente com políticas e programas baseados em evidência científica poderemos neutralizar a circulação de falsas e perigosas informações”.

O professor tem 231 trabalhos acadêmicos mencionados em mais de 3,1 mil documentos de políticas públicas, com foco sobretudo em aleitamento materno. Seus estudos fundamentaram a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança, no Brasil, e um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre desenvolvimento infantil, que, por sua vez, impactou quase duas centenas de outros documentos em 21 países.

Logo após Victora, aparecem Monteiro (USP), referência mundial em alimentação e nutrição, criador da classificação de alimentos NOVA e influente em políticas de rotulagem e combate a ultraprocessados; Barros (UFPel), epidemiologista que contribuiu para políticas de saúde materno-infantil e avaliação de programas sociais; Saldiva (USP), patologista e pesquisador de referência em poluição do ar e saúde urbana; e Hallal (UFPel), epidemiologista reconhecido por liderar inquéritos nacionais de prevalência de covid-19 e por sua atuação em políticas de promoção da atividade física.

Juntos, esses cientistas ilustram a capacidade da pesquisa brasileira de dialogar com desafios globais, da nutrição à urbanização, e de gerar evidências que moldam decisões públicas dentro e fora do Brasil. “Compreender quais cientistas influenciam as políticas — e quem está faltando nessa conversa — é essencial para fortalecer a tomada de decisão baseada em evidências”, ressalta Euan Adie, fundador e diretor da Overton.

Poucas mulheres

Os dados também evidenciam desigualdades. Há baixa presença de mulheres entre os pesquisadores brasileiros que mais influenciam políticas públicas: das 107 pessoas mapeadas, apenas 22 são mulheres (20,5%).

Alguns nomes ilustram a relevância dessa presença, como o de Ester Sabino (USP), com forte atuação no estudo de vírus emergentes e com papel fundamental durante a pandemia de covid-19. Há também mulheres em destaque na análise específica sobre documentos relacionados ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável que trata de ações contra a mudança global do clima (ODS 13). O relatório identificou os 50 pesquisadores brasileiros mais citados nessa agenda, que somam mais de 7,6 mil menções.

É o caso de Luciana Gatti, pesquisadora titular no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), citada no relatório Forest and Ice Tipping Points in the Earth System, publicado em 2025 pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que alerta para os riscos de colapso de grandes sistemas naturais, como a Amazônia e as calotas polares, diante do aquecimento global. Ela também é citada em um documento brasileiro, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), que apresenta indicadores técnicos sobre emissões e remoções de Gases de Efeito Estufa (GEE). 

Outro exemplo é o de Mercedes Bustamante, professora associada da Universidade de Brasília (UnB), cujo trabalho embasou o Workshop Report on Biodiversity and Pandemics, da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), de 2020, que foi utilizado como referência em mais de 130 documentos de políticas ambientais globais. A sua produção também foi citada em documento do MCTI, contribuindo para a consolidação de dados nacionais de mitigação das mudanças climáticas.

Segundo Ana Paula Morales, cofundadora e diretora da BORI, a incidência do conhecimento científico em tomadas de decisão passa pela comunicação do que é feito na academia. “Quando a evidência é comunicada de forma clara e acessível, ela molda o entendimento público e capacita a sociedade para exigir decisões apoiadas no conhecimento”, ressalta.

Sabine Righetti, cofundadora da BORI e pesquisadora no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor/Unicamp), concorda, ressaltando que o relatório mostra que a ciência não é periférica para o Estado, mas um dos seus instrumentos de governança. “Reconhecer essa conexão fortalece a democracia, porque a formulação de políticas baseada em evidências é a expressão mais concreta da razão pública”, completa.

Confira aqui a íntegra do relatório.

*A BORI desenvolve soluções para tornar o conhecimento científico acessível, por exemplo, por meio do mapeamento e disseminação de estudos científicos de excelência de pesquisadores do Brasil à imprensa nacional. Com o apoio do Instituto Ibirapitanga, temos uma área de sistemas alimentares, que engloba a divulgação de pesquisas e treinamentos para cientistas e jornalistas. A proposta é impactar positivamente a sociedade e as tomadas de decisão com base em evidências científicas. Acesse abori.com.br ou fale com a gente no bori@abori.com.br.

ESTE CONTEÚDO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #490 (JAN/FEV) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Agência BORI* Débora Faria
Agência BORI* Débora Faria