Comida cara

18 de agosto de 2026

Por que o custo dos alimentos sobe mais que a inflação? Estudo explica que o fenômeno é estrutural; modelo agroexportador e concentração de mercado encarecem alimentos frescos e favorecem ultraprocessados

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A alta dos preços nos supermercados costuma ser o principal termômetro da economia para a maioria da população. No noticiário, é comum que a culpa pelo encarecimento da comida recaia sobre vilões isolados, como secas, geadas ou oscilações do dólar.

Um novo estudo brasileiro, publicado pela ACT Promoção da Saúde, revela que a inflação de alimentos no Brasil vai muito além de crises passageiras e configura-se como um fenômeno estrutural e sistêmico, que encarece os produtos frescos em detrimento dos ultraprocessados. A pesquisa, conduzida por Valter Palmieri Júnior, economista e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), detalha as engrenagens políticas e econômicas que ditam os preços nas prateleiras.

De acordo com Marília Albiero, gerente de Inovação e Estratégia da ACT, “essa abordagem sistêmica qualifica o diagnóstico. Nesse sentido, reforça a importância de dar continuidade e aprimorar as políticas públicas existentes, e ao mesmo tempo chama atenção para a necessidade de soluções inovadoras capazes de responder às demandas atuais da sociedade e do planeta”.

A alimentação representa 21,84% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o principal indicador da inflação no País. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as famílias com renda de até dois salários mínimos destinam 49,1% a mais de sua despesa total com comida do que a média nacional. Isso significa que a inflação dos alimentos afeta desproporcionalmente quem já tem menos.

Desde 2006, os preços dos alimentos sobem sistematicamente acima da inflação geral no Brasil. Os campeões de encarecimento foram frutas, carnes, tubérculos, raízes, legumes, aves e ovos. As frutas, em especial, tiveram elevação de preços 2,8 vezes maior do que a inflação geral nesses 20 anos — um desincentivo direto ao consumo saudável, principalmente entre os mais pobres.

O contraste com países desenvolvidos é revelador. Entre 2006 e 2012, a inflação de alimentos no Brasil acumulou 64%, taxa muito superior à de países como França (13%), Alemanha (17%), Estados Unidos (14%) e Japão (2%), onde os preços acompanharam mais de perto a inflação geral.

Palmieri Júnior considera que isso não é coincidência, pois a inflação dos alimentos está profundamente ligada ao padrão de desenvolvimento focado na exportação. “O modelo agroexportador e a forma de inserção internacional do País direcionam recursos produtivos para a exportação, o que afeta, indiretamente, a produção e os custos dos produtos voltados para o mercado interno, como arroz, feijão, frutas e hortaliças”, pontua.

Os dados sobre uso da terra explicam parte do problema. Em 2006, havia 4,1 vezes mais hectares destinados para soja, milho e cana-de-açúcar do que para alimentos básicos pouco exportados, como arroz, feijão e mandioca. Em 2025, essa razão saltou para 12,4 vezes. No mesmo ano, Brasil exportou 209 milhões de toneladas de alimentos, enquanto a produção somada de arroz e feijão ficou em torno de 14 milhões de toneladas. A especialização em commodities também se aprofundou territorialmente: em 2006, 1.112 municípios tinham pelo menos 80% da área colhida concentrada em soja, milho e cana; em 2024, esse número chegou a 1,62 mil.

Esse processo resulta num efeito cascata no custo dos alimentos que chegam à mesa. Em Unaí (MG), historicamente produtora de feijão, a expansão da soja reduziu a produção da leguminosa tradicional em 30%, entre 2006 e 2024, e elevou seus custos. O resultado é que o agricultor migra para culturas mais rentáveis e o abastecimento interno enfraquece. Dos 20 municípios que mais produziam feijão em 2006, 17 reduziram a produção em 2024.

A restrição da oferta é agravada pela estrutura de mercado que permeia toda a cadeia alimentar. O estudo identifica oligopólios em cada elo, dos insumos agrícolas ao varejo supermercadista, o que amplia o poder das grandes empresas sobre os preços. No campo, a valorização da terra nos polos do Agronegócio — que chegou a 140% no Estado de São Paulo entre 2006 e 2014, no auge do boom das commodities — eleva os custos para quem produz alimentos básicos e pressiona ainda mais a oferta interna.

“Se uma pessoa destinasse, por exemplo, 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com essa mesma proporção, conseguiria levar mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis. Entre 2006 e 2026, o poder de compra de frutas caiu cerca de 31%”, ressalta Palmieri Júnior. “Esse movimento altera os incentivos econômicos de consumo e tende a piorar a qualidade da dieta”, destaca.

As mudanças climáticas entram nesse cenário como fator agravante. O estudo aponta que essas alterações deixaram de ser um elemento exógeno e episódico para converterem-se em determinante estrutural da oferta, dos custos e dos preços no sistema agroalimentar. Uma estrutura produtiva altamente concentrada, pouco diversificada e dependente de poucas áreas geográficas torna-se mais vulnerável a eventos climáticos extremos; quando choques atingem esses lugares, o efeito propaga-se nacionalmente.

O estudo defende medidas como fortalecimento da agricultura familiar, ampliação do crédito, retomada de estoques públicos e adoção de políticas para aumentar a concorrência no setor. Controlar a inflação da comida, portanto, exige tratar a alimentação como eixo central das políticas públicas, superando a lógica focada na rentabilidade e no comércio exterior.

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ESTE CONTEÚDO FAZ PARTE DA EDIÇÃO #49​3 (JUL/AGO) DA REVISTA PB. CONFIRA A ÍNTEGRA, DISPONÍVEL AQUI.

Agência BORI* Débora Faria
Agência BORI* Débora Faria