Depois de um crescimento excepcional no período de 1950 a 1980, a economia brasileira passou a apresentar um fraco desempenho no ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB), fazendo com que ficássemos relativamente mais pobres em relação ao mundo a partir do início da década de 1980.
Parte expressiva dessa perda de dinamismo está associada ao comportamento da produtividade. Como afirma Paul Krugman (Prêmio Nobel de Economia de 2008), “a produtividade não é tudo, mas, no longo prazo, é quase tudo”. Nesse sentido, basta observar que a produtividade da economia brasileira — que crescia 4% ao ano (a.a.) até 1980 — caiu para 0,6% a.a. desde então. E nos últimos dez anos, registrou queda de 0,3% a.a.
Uma análise dos indicadores setoriais mostra a importância da tecnologia nesse comportamento. Enquanto a produtividade no setor Agropecuário cresceu 5,7% a.a. nos últimos 30 anos, a produtividade na Indústria registrou queda de 0,5% a.a., segundo dados da Fundação Getulio Vargas (FGV). Além da maior exposição internacional, o desempenho do setor primário tornou-se muito mais eficiente pela absorção de tecnologias mais modernas, com o apoio da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A Indústria, por sua vez, excessivamente protecionista, não conseguiu acompanhar (com algumas exceções) as transformações mundiais.
A tecnologia continuou avançando. E, certamente, o principal elemento de elevação da produtividade está na Inteligência Artificial (IA). A IA surgiu como uma força transformadora, impactando decisivamente a produtividade ao automatizar tarefas rotineiras, ampliar capacidades humanas e fomentar inovações sem precedentes em produtos e serviços.
Em termos empresariais, a IA muda a forma como as empresas são administradas, refletindo na própria gestão empresarial, na medida em que permite decisões mais rápidas baseadas em grandes volumes de dados e com mais precisão, detectando padrões, prevendo tendências e fornecendo insights valiosos aos gestores por meio de uma visão mais assertiva do negócio. Além disso, a IA também pode ser utilizada para melhorar a experiência dos clientes por meio de chatbots (simulação de conversas com humanos) inteligentes, personalização de atendimento e recomendações baseadas em comportamento.
É importante observar, no entanto, que a transformação proporcionada pela ferramenta lida com impasses, incluindo infraestrutura tecnológica insuficiente, falta de mão de obra qualificada, questões regulatórias e de segurança de dados e desafios educacionais e culturais.
A implementação bem-sucedida da IA no Brasil exige investimentos em infraestrutura tecnológica, incluindo a melhoria da conectividade à internet, o acesso a dispositivos tecnológicos atualizados e o fortalecimento das medidas de segurança cibernética. Paralelamente, a educação e a capacitação profissional são pilares essenciais para adaptar a força de trabalho às novas exigências.
A reformulação dos currículos para englobar habilidades digitais e o conhecimento em IA desde cedo, ao lado de programas de treinamento que atendam tanto jovens quanto trabalhadores em busca de atualização, são fundamentais.
Sabe-se que a implementação da IA no Brasil ainda enfrenta resistências culturais que precisam ser rapidamente superadas, porque não podem “atrasar” a evolução da tecnologia, dado o seu potencial transformador. Como diz o título deste artigo, não se pode “perder o bonde” da IA sob o risco de acentuar nosso empobrecimento relativo. Empresas que não acompanharem essas transformações serão atropeladas pelos seus concorrentes.
Experiências passadas mostram que existe uma defasagem temporal entre o surgimento de uma tecnologia e o seu efeito na produtividade, uma vez que se exigem mudanças profundas na forma da organização das empresas. Mas é importante observar que o processo de difusão da IA será muito mais rápido. Adiar decisões pode custar a sobrevivência de muitos negócios.
Em resumo, a IA abre grandes possibilidades para aumentos expressivos da produtividade, que seria particularmente bem-vinda diante da desaceleração observada nas últimas décadas.
Os artigos aqui publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião da PB. A sua publicação tem como objetivo privilegiar a pluralidade de ideias acerca de assuntos relevantes da atualidade.