Pense nos mosquitos da Mata Atlântica. Durante séculos, esse bioma exuberante e intocado proporcionou a eles um banquete diversificado e farto de primatas, aves e anfíbios. Mas, com o desmatamento, a perda de biodiversidade e o aumento das temperaturas, esses insetos incômodos viram-se viciados em algo novo: sangue humano.
“É difícil dizer se os mosquitos desenvolveram um gosto por nós”, afirma o virologista Sérgio Machado, pesquisador de Microbiologia e Imunologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “É mais uma questão de oportunidade e conveniência”, aponta. Em outras palavras, com o desaparecimento das florestas, o ser humano tornou-se o caminho de menor resistência entre os mosquitos e seu jantar.
Machado, juntamente com Jeronimo Alencar e outros pesquisadores, conduziu recentemente um estudo sobre os hábitos alimentares de mosquitos em áreas remanescentes da Mata Atlântica no Estado do Rio de Janeiro. Foram coletados 1.714 insetos de 52 espécies diferentes para descobrir o que eles haviam comido, por meio da análise do sangue encontrado em seus sistemas digestivos.
Esperando que os insetos tivessem ingerido uma variedade de fontes de alimento, os resultados — publicados na revista Frontiers in Ecology and Evolution no início de fevereiro — foram surpreendentes. Ao examinar o sangue coletado de 24 mosquitos fêmeas ingurgitadas (que haviam consumido grande quantidade de sangue), os pesquisadores descobriram que dois terços deles haviam se alimentado de sangue humano, sugerindo uma clara preferência, mesmo num ambiente preservado, onde aves, roedores, primatas e outros mamíferos são mais comuns.
“É provável que o sangue humano tenha se tornado o tipo preferido dos mosquitos em razão da falta de outras opções”, constata Machado, acrescentando que, durante o trabalho de campo, a equipe de pesquisa notou uma concentração visivelmente reduzida de vertebrados nas reservas da Mata Atlântica que estudaram. “Só ouvimos macacos uma vez; não vimos onças-pintadas nem canídeos. O que vimos foram capivaras, jacarés e um tamanduá. Portanto, podemos concluir que a concentração de fauna naquele local provavelmente está menor do que antes”, detalha.
A Mata Atlântica é o bioma mais degradado do Brasil, com apenas 24% de sua área ainda preservada — e somente 12,4% composta por floresta madura e bem preservada, segundo a ONG SOS Mata Atlântica.
Atualmente, o bioma sobrevive apenas em ilhas de floresta praticamente isoladas, cercadas por desmatamento e atividades humanas. Dessa forma, as espécies de plantas e animais estão em habitats restritos, o que as põe em risco de extinção em longo prazo.
De fato, a expansão urbana representa mais um ponto positivo para os mosquitos. Em vez de perseguirem onças, pássaros ou outros animais, Machado observou que eles podem “conservar sua energia” simplesmente alimentando-se dos humanos que vivem às margens da floresta, aumentando o risco de agravar os problemas de saúde pública em decorrência das doenças que esses insetos transmitem. Por isso, a disseminação e adaptação dos mosquitos não é apenas um problema de redução da cobertura florestal, como atesta a espécie mais notória desse inseto no Brasil.
Depois da adaptação evolucionista que permitiu que se alimentasse de humanos, na África Ocidental, o Aedes aegypti chegou às Américas durante o tráfico transatlântico de escravos e estabeleceu-se nas crescentes cidades brasileiras, que lhe proporcionavam abrigo contra as intempéries, acesso à água e a uma população humana que crescia rapidamente.
Embora os mosquitos florestais coletados por Machado e seus colegas sejam principalmente vetores de doenças como febre amarela e malária, o resistente mosquito, um sobrevivente urbano, é responsável principalmente pela dengue, um problema de saúde pública persistente — no Brasil e em outras partes das Américas —, que é agravado pelas mudanças climáticas.
A dengue é uma doença viral que geralmente se manifesta com sintomas como febre alta e dores articulares, embora casos graves possam levar a hemorragias e falência de órgãos. Não existe tratamento antiviral específico. A vacina Qdenga, da biofarmacêutica Takeda, administrada em duas doses, está disponível, mas o acesso para populações vulneráveis é limitado por causa da disponibilidade em estoque e do alto preço. O Instituto Butantan desenvolveu uma vacina de dose única, atualmente em processo de aprovação.
O pesquisador Christovam Barcellos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), explica que o calor é um poderoso gatilho na biologia dos mosquitos. “Água e ar quentes aceleram seus ciclos reprodutivos, da fase de ovo à larva e, finalmente, à fase adulta”, afirma, indicando que os mosquitos se reproduzem e alimentam-se com mais rapidez em condições de maior temperatura.
Mais calor também permitiu que os mosquitos se espalhassem para áreas antes inóspitas para eles, incluindo altitudes mais elevadas, onde historicamente as temperaturas noturnas mais baixas mantinham esses insetos afastados. Mas Barcellos salienta que a dinâmica é tanto comportamental quanto biológica. “Em climas mais quentes, as pessoas que vivem em áreas urbanas saem de casa, usam shorts, chinelos, ficam mais expostas”, pontua.
Portanto, o fenômeno climático El Niño, que causa temperaturas mais altas e intensificação das chuvas na América do Sul, cria uma tempestade perfeita para a disseminação de doenças transmitidas por mosquitos. Não é coincidência que o surto recorde de dengue no Brasil — com impressionantes 6,6 milhões de casos e cerca de 6,2 mil mortes em 2024 — tenha ocorrido durante um dos eventos do El Niño mais intensos da história.
Um estudo de setembro de 2025, liderado por pesquisadores brasileiros, australianos e britânicos, projetou que, sem ações climáticas suficientes, a densidade populacional de Aedes aegypti no Brasil poderia aumentar em 31% até 2080, enquanto uma redução efetiva das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) limitaria esse crescimento a 11%.
Na América do Sul, a dengue está se tornando mais prevalente nos planaltos brasileiros e alastrando-se na Argentina, no Uruguai e no Chile. Em 2023, o cientista-chefe da Organização Mundial da Saúde (OMS), Jeremy Farrar, alertou que a doença se tornaria uma grande ameaça no sul da Europa antes do fim da década, enquanto outros especialistas apontam a China e o sul dos Estados Unidos como principais candidatos a futuros surtos graves. “A incidência da dengue é irreversível uma vez que se instala”, enfatiza Barcellos. “As cidades que registram seus primeiros casos de dengue nunca mais ficarão livres da doença, sempre haverá casos”, completa.
Embora doenças transmitidas por mosquitos não possam ser erradicadas de forma eficaz, cientistas desenvolveram maneiras inovadoras de reduzir os danos que causam. Uma dessas estratégias é o chamado Método Wolbachia, que utiliza bactérias comuns para impedir que os mosquitos Aedes aegypti transmitam doenças, essencialmente combatendo a natureza com a própria natureza.
A Wolbachia é um gênero de bactéria comum que infecta naturalmente cerca de 60% dos insetos. Para os mosquitos Aedes aegypti, no entanto, uma infecção por Wolbachia significa que o organismo não pode mais desenvolver dengue, zika, chicungunha e febre amarela urbana — e que, mesmo que se alimentem de sangue humano infectado, serão incapazes de transmitir a doença de um hospedeiro para outro.
Esse escudo biológico é autossustentável, pois a bactéria Wolbachia é transmitida à prole por meio da reprodução, criando, teoricamente, populações locais de mosquitos incapazes de transmitir doenças.
O método foi trazido para o Brasil, no início da década de 2010, por pesquisadores da Fiocruz e, em 2023, uma parceria entre este instituto de pesquisa biológica e o Programa Mundial de Mosquitos, iniciativa internacional sem fins lucrativos ligada à australiana Monash University, deu origem a uma nova empresa: a Wolbito do Brasil, responsável por expandir a utilização do Método Wolbachia em todo o Brasil.
A abordagem do grupo alcançou resultados promissores em seu projeto-piloto em Niterói — do outro lado da baía do município do Rio de Janeiro —, que é a única cidade atualmente a ter populações infectadas com Wolbachia liberadas em todo o seu território. Dados oficiais mostraram uma queda de 89% nos casos de dengue notificados após a implementação do projeto, em comparação com os dez anos anteriores à intervenção.
Durante o surto recorde de dengue de 2024, a incidência em Niterói, de 374 casos por 100 mil habitantes, foi drasticamente menor do que a do Estado do Rio de Janeiro como um todo (1.884 por 100 mil).
Para ampliar os esforços, o Brasil agora abriga a maior biofábrica do Método Wolbachia do mundo, em Curitiba, no Paraná, capaz de produzir a impressionante quantidade de 100 milhões de ovos de mosquito injetados por semana. Com a nova instalação, o programa financiado pelo governo federal está sendo expandido para mais 40 municípios em todo o País, identificados pelo Ministério da Saúde como áreas de alto risco. “Não temos uma solução milagrosa para impedir qualquer tipo de transmissão viral”, declarou o porta-voz da Wolbito, Gabriel Sylvestre. “Sempre dizemos que nosso método é complementar ao que já está sendo feito”, ressaltou.
Sylvestre destacou outras estratégias que utilizam inseticidas ou mosquitos esterilizados, com o objetivo de matar insetos. “Todas essas abordagens podem ser combinadas de forma inteligente, por isso o Ministério da Saúde está explorando essas estratégias e tentando criar o melhor cenário para cada uma delas”, acrescentou.
Enquanto isso, Machado e seus colegas da UFRJ estão buscando mais apoio financeiro para dar continuidade às suas linhas de pesquisa, e estão à procura de estudantes talentosos para ajudá-los. Ele explica que o Brasil tem uma surpreendente escassez de entomologistas, profissionais cruciais para o trabalho de identificação de insetos.
“Não vou dizer que consigo contar todos os entomologistas do Brasil nos dedos das minhas duas mãos, mas quase não há nenhum se comparado com o número de biólogos. Não é necessariamente um trabalho difícil, mas consome muito tempo”, pondera Machado. “Espero que, com nossa pesquisa, possamos atrair mais pessoas para o nosso laboratório para serem treinadas”, conclui.