A célebre frase do personagem Eldon Tyrell no clássico longa-metragem Blade Runner, de 1982 — “More human than human is our motto” [“Ser mais humano que o humano é o nosso lema”, em tradução livre] —, sintetiza a ambição de criar tecnologias capazes de superar limitações inerentes à condição humana. Contudo, como observa o protagonista da obra, Rick Deckard, ao afirmar que máquinas podem ser “um benefício ou um risco”, o valor dos sistemas automatizados depende sempre de como são empregados.
Essa ambivalência é central quando se discute a adoção de algoritmos na gestão de pessoas, capaz de promover mais transparência e imparcialidade, mas também sujeita a distorções caso falte supervisão humana qualificada.
Em estruturas organizacionais complexas, decisões tradicionais de Recursos Humanos (RH) podem ser influenciadas por vieses inconscientes, relações pessoais e percepções imprecisas. Nesse cenário, práticas como blind hiring(recrutamento às cegas) representam avanço importante ao ocultar dados sensíveis — nome, idade, gênero ou aparência — e concentrar a avaliação nas competências efetivamente relacionadas ao cargo. A técnica reduz interferências subjetivas e amplia a isonomia, embora não elimine a necessidade de capacitação dos avaliadores, especialmente porque os vieses podem ressurgir nas fases presenciais do processo seletivo.
Movimento semelhante pode ocorrer na etapa de desligamento. Dentro da lógica de anglicismos corporativos, tende a emergir o termo blind firing (demissão às cegas), aplicando critérios objetivos — assiduidade, desempenho e cumprimento de metas — antes de qualquer análise nominal. A técnica seria útil em demissões coletivas, ao reduzir alegações de parcialidade e assegurar uniformidade entre os parâmetros utilizados. Ainda assim, o procedimento exige cautela: objetividade não pode ser confundida com automatismo acrítico.
A utilização de algoritmos para avaliação de desempenho baseada em KPIs (indicadores-chave de desempenho) segue a mesma racionalidade. Sistemas de Inteligência Artificial (IA) organizam grandes volumes de dados, realizam análises contínuas e oferecem métricas padronizadas, contribuindo para decisões mais previsíveis e menos suscetíveis a arbitrariedades.
A objetividade dos indicadores fortalece a meritocracia e melhora a gestão, desde que se reconheça que tais sistemas não são neutros por natureza. Um algoritmo reflete a sua programação e os dados que o alimentam; bases enviesadas podem perpetuar desigualdades sob aparência de rigor técnico.
Em razão disso, governança, transparência e auditabilidade tornam-se elementos indispensáveis. Empresas devem ser capazes de esclarecer quais variáveis influenciaram determinada pontuação, o que levou um colaborador a receber certo resultado e de que forma eventuais inconsistências podem ser contestadas. Essa obrigação de explicabilidade, além de fortalecer a confiança interna, atende às exigências jurídicas relacionadas à prevenção de discriminação e ao dever de diligência organizacional.
A decisão final, sobretudo em temas sensíveis como promoções, sanções ou desligamentos, não deve ser delegada integralmente à automação. Algoritmos podem identificar padrões de desempenho, mas não captam integralmente nuances contextuais, como situações excepcionais, limitações estruturais do posto ou fatores pessoais que impactam a produtividade.
Assim, a adoção de algoritmos na gestão de pessoas não constitui uma ameaça, mas uma oportunidade de modernização responsável. A combinação entre critérios objetivos, práticas como blind hiring, avaliação por IA e revisão humana qualificada fortalece a neutralidade e torna decisões mais consistentes, inclusivas e auditáveis.
O desafio contemporâneo não é rejeitar a tecnologia, mas integrá-la de forma consciente, equilibrada e alinhada com os princípios da dignidade e da igualdade no trabalho. A tecnologia orienta; o ser humano valida. Esse duplo controle é o que garante equilíbrio entre eficiência e justiça.
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