A matemática está nos dados que fazem a previsão do tempo e alertam para o aquecimento global. Também marca presença nas pesquisas de opinião, instrumento cotidiano nas democracias e nas estratégias de marketing. É, ainda, o pilar fundamental que rege os algoritmos das redes sociais e cria a Inteligência Artificial (IA), ou é ferramenta para a tomada de decisões acertadas quando o assunto é dinheiro. Saber matemática ajuda a entender o mundo e, por isso, é crucial para o exercício pleno da cidadania, independentemente de seu uso profissional. Mas os brasileiros saem da escola com conhecimentos limitados sobre essa ciência.
Ao fim do ensino médio, apenas 5,2% dos estudantes demonstram aprendizagem adequada em matemática e 55% têm conhecimento abaixo do nível considerado básico, de acordo com os dados de 2023 do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Isso significa que menos da metade dos jovens que concluem a educação básica sabe o suficiente para interpretar gráficos ou compreender juros. O resultado final insatisfatório é consequência de um acúmulo de atrasos: 19% dos estudantes dos anos iniciais (primeiro ao quinto ano) estão abaixo do básico na matéria; nos anos finais (sexto ao nono ano), são 29%.
Além dos números oficiais do governo brasileiro, não faltam estudos que comprovem o déficit no conhecimento matemático. A pesquisa Aprendizagem na Educação Básica, do movimento Todos Pela Educação, de 2025, mostrou que 59% dos estudantes do ensino médio terminaram a etapa sem saber calcular regra de três.
Segundo dados de 2022 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), mais de 70% das crianças e dos adolescentes brasileiros apresentam dificuldades básicas em matemática, o que nos coloca três anos atrás da média internacional. Enquanto 69% dos alunos de países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) atingem o nível 2 de proficiência, apenas 27% dos brasileiros chegam a essa posição.
Sem ter aprendido o suficiente de matemática na escola, as pessoas seguem carregando dificuldades por toda a vida. “Uma vez, fui comprar um sorvete na praia e só tinha uma nota de R$ 100. O sorveteiro disse que não sabia dar o troco. As pessoas na fila foram tentar ajudar e saíram três resultados diferentes”, conta o matemático e professor Marcelo Viana, sobre casos pessoais que ele coleciona para mostrar o resultado cotidiano do fracasso do ensino da disciplina no Brasil. Viana é diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e, sempre atento à matemática no dia a dia, garante que esse tipo de história é mais comum do que a maioria das pessoas nota.
Não aprender bem aritmética, o que se traduz na dificuldade para fazer contas, é grave, mas apenas parte de um problema maior. A matemática é chave para entender temas estruturantes do século 21, como a IA, a democracia e as mudanças climáticas. “A matemática está entrando em outros domínios da vida e faz parte de muitas decisões, não é um assunto restrito a certas profissões. Quem decide se você vai ter ou não um empréstimo é o algoritmo. Quando você usa a internet para encontrar com quem se relacionar, é um algoritmo que decide quem você vai conhecer. Matemática é poder”, resume Viana.
Com tanta gente que não sabe bem matemática, o risco é o Brasil ficar cada vez mais atrasado e dependente de tecnologias externas. “Se você tem esse poder [da matemática], pode usá-lo. Se não tem, alguém vai usá-lo às suas custas. Isso vale também para as nações. O país com domínio de matemática vai usá-lo em vantagem própria”, explica o matemático. O prejuízo é, portanto, individual e coletivo.
E o País tem capacidade para formar grandes matemáticos. Dentre profissionais de destaque internacional, o mais conhecido é Artur Ávila, que ganhou em 2014 a Medalha Fields, equivalente ao Prêmio Nobel, só que para a área. “O Artur estudou aqui: faculdade, mestrado e doutorado. O Brasil tem pesquisa de ponta na disciplina, mas é necessário que se torne um objetivo estratégico nacional, que chegue a todos”, opina o diretor do Impa.
Na sua experiência como professor de reforço escolar para alunos a partir do sexto ano, Marcel Costa conta que muitos estudantes, ainda bem jovens, chegam às aulas cheios de rejeição e, às vezes, com traumas com a matemática. “Preciso trabalhar, primeiro, com o que chamo de resiliência e tenacidade emocional. Na prática, é resgatar o gosto pelo estudo, mostrar que não tem drama nenhum na matemática”, relata o professor, que hoje é diretor da Integralmind, instituição de reforço escolar e preparação para vestibulares.
O que muitos chamam de “ansiedade matemática” é geralmente provocada pelo acúmulo de experiências ruins na avaliação e nos rótulos que surgem a partir disso. “Às vezes, o aluno sabe quase tudo e não entendeu só um detalhe. Só que uma vírgula ou um sinal traz o resultado errado. O aluno acaba rotulado como alguém ruim em matemática, o que vira uma profecia autorrealizável”, avalia. Sem estratégias que revertam o problema no ensino fundamental, as dificuldades de aprendizagem acumulam-se e acabam respingando também em física e química.
Ainda que aulas de reforço ou um professor sensível em sala de aula possam mudar a rota de um estudante, é preciso políticas nacionais para que o avanço chegue a todos, defende Kátia Smole, diretora do Instituto Reúna, que desenvolve conhecimento e serviços técnico-pedagógicos para a educação. “O Brasil precisa que a aprendizagem da matemática seja um compromisso de todos os governos, em todas as esferas, por pelo menos dez anos. E, pela primeira vez, o MEC [Ministério da Educação] lançou uma política nesse sentido, a Toda Matemática”, conta ela.
Oficialmente batizado de Compromisso Nacional Toda Matemática (Comat), a política pública foi lançada em 2025 e, dentre outros pontos, incluiu a Matemática nas metas de alfabetização. Segundo o MEC, já foi realizada uma série de ações, como apoio financeiro do Programa Dinheiro Direto na Escola, para a implementação de Clubes de Letramento Matemático voltado para o sexto ano do ensino fundamental, em escolas priorizadas. “Também foram destinados mais recursos para a realização da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e para a oferta de cursos de especialização voltados à formação continuada de professores que ensinam matemática”, informa a pasta. No ano passado, o investimento no Comat foi de R$ 70 milhões e as redes estaduais e municipais interessadas precisam aderir ao Compromisso.
O caminho para o Brasil melhorar em matemática precisa mesmo passar pela educação, num esforço que deve começar muito cedo, ressalta Kátia. “Se na família as pessoas falam, a criança aprende a falar naturalmente. Mas precisa ir para a escola para escrever. Para a matemática, também”, compara. A diretora do Reúna defende que é importante parar de achar que, primeiro, se alfabetiza para, depois, ensinar matemática. “As escolas levam quatro anos trabalhando prioritariamente a língua portuguesa, achando que vai ser fácil aprender matemática mais tarde. Quem é alfabetizado de fato aprende melhor geografia e história, mas a matemática é progressiva e as estruturas mentais não desenvolvidas fazem falta. No terceiro ou quarto ano, as crianças já estão com déficit”, ressalta.
A matemática tem suas peculiaridades. Os primeiros fundamentos da aritmética e da geometria precisam estar firmes para que, a partir do sexto ano, os estudantes aprendam também álgebra e entendam o conceito de variável. “Muitos falam que a matemática é difícil por causa da abstração, mas metáforas, como ‘dar asas à imaginação’, são abstrações e todo mundo entende. A gente tem os meridianos e paralelos, os fusos horários, sem ninguém pegar um pedaço de meridiano e paralelo. O cérebro humano é capaz de entender abstrações”, afirma a diretora do Reúna.
Segundo Kátia, a matemática nacional pode melhorar com o básico: investimento no professor e na recomposição de aprendizagens dos estudantes. “Quem está, hoje, no oitavo ano estava no segundo durante a pandemia, e os efeitos perduram. A escola tem que identificar a dificuldade e apoiar com tutorias. Também é preciso organizar o material e as formações docentes para essa realidade”, opina. Mas há ainda uma variável fundamental para a equação chegar ao resultado esperado — consistência. “As políticas para educação precisam de continuidade. A alfabetização melhorou porque entra governo, sai governo, o compromisso mantém-se. Temos que fazer o mesmo com a matemática”, conclui.