A maioria dos estudantes e professores brasileiros da educação básica usam ferramentas de Inteligência Artificial (IA) em sua rotina de estudo e trabalho. Essa realidade se impôs de baixo para cima, de forma independente dos planejamentos e das intenções das redes de ensino, das secretarias de educação e do próprio Ministério da Educação (MEC).
A pesquisa TIC Educação 2025, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), revelou que sete em cada dez estudantes brasileiros do ensino médio, usuários da internet, recorrem à ferramentas de IA generativa — como ChatGPT, Copilot e Gemini — para realizar pesquisas escolares. No entanto, apenas 32% dizem ter recebido orientação na escola sobre como utilizar a tecnologia. Um levantamento da Fundação Itaú apontou números ainda maiores: 84% dos estudantes brasileiros já usaram recursos de IA. E não é só o aluno. A mesma pesquisa mostrou que 79% dos professores brasileiros já recorreram à IA.
Se a prática não esperou pela teoria, recentemente o MEC, o Conselho Nacional de Educação (CNE) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) lançaram documentos para tentar nortear esse uso, indicando os potenciais positivos e os riscos de incorporar a IA às escolas. “Lançamos o Referencial de IA na Educação num momento em que a presença da ferramenta nas escolas aumentou. É uma resposta a dúvidas que estavam chegando até nós. Mas também foi quando foi possível dar orientações mínimas, com base em evidências. Como ministério, é preciso ter cautela, conversar com especialistas e com a rede”, afirma Ana Dal Fabbro, coordenadora de Educação Digital, Inovação e Conectividade (CGTI) do MEC.
O documento orientador do MEC ressalta a distinção entre ensinar sobre IA e ensinar com IA. “O MEC considera o ensino sobre IA necessário. E o ensino com IA tem sempre que vir associado ao ensino sobre IA. No momento, há poucas evidências de que o ensino com IA melhore a aprendizagem dos estudantes”, explica Ana.
Essa diretriz significa que o uso deve sempre ser acompanhado de consciência acerca dos riscos desses sistemas. A coordenadora do MEC relata que soube de experiências criativas, porém desaconselháveis, como usar fotografias de estudantes para que se imaginassem no futuro com diferentes profissões. “As fotos vão todas para os bancos de dados dessas plataformas, serão usadas no treinamento das IAs. Estamos expondo a imagem de crianças e adolescentes”, alerta.
Os riscos são grandes também quando se trata de vieses. Os agentes de IA escrevem perfeitamente em português, mas foram treinados intensamente com informações em inglês, de outros contextos. “Os professores podem usar para pesquisar conteúdos, planejar aulas, mas precisam entender as limitações, saber que a IA pode propor atividades e projetos descontextualizados e até enviesados”, observa Ana.
Mesmo as IAs de previsão devem ser usadas com cuidado pela gestão escolar. Se for para comunicar à secretaria quando um aluno começa a apresentar padrões de abandono escolar e esse alerta gerar estratégias de retenção, trata-se de um uso útil. Se as previsões forem usadas para rotular estudantes e limitar destinos, é um uso pernicioso. Até dentro da sala de aula a mesma funcionalidade pode ser ótima ou terrível. “Se um estudante gosta de futebol, pode ser interessante dar um problema de matemática abordando o futebol para que se engaje. Contudo, no longo prazo, se o estudante só receber problemas falando de futebol, ele vai ter um repertório reduzido”, pondera a coordenadora do MEC.
“O material do MEC soou para as escolas como um acalanto: a gente sabe que é legítimo fazer uso da IA na educação. É como a mãe que assina o bilhete autorizando o passeio”, opina Juliana Caetano, coordenadora de Tecnologia Educacional na Escola e no Instituto Vera Cruz. E acrescenta que a diretiva é importante também para que a tecnologia chegue aos professores que resistem à adoção. “Serve como um ponto de partida para convocar as pessoas que estão num lugar reativo, com o objetivo de pensar numa problematização crítica, e não na demonização da IA”, completa.
A coordenadora acredita que o documento do MEC faz sentido também num contexto maior: o do esforço nacional para cuidar de como as crianças e adolescentes usam as redes sociais — e são usados por essas mídias e outras ferramentas digitais. Em 2025, foi aprovada a lei que proíbe os celulares nas escolas e, neste ano, foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, o ECA Digital. “São posicionamentos que transmitem o compromisso da Nação frente a uma situação tensionada. O Brasil posiciona-se nesse debate, que é mundial”, avalia a coordenadora do Vera Cruz.
Na prática, os professores ficam na linha de frente para lidar com o desafio da formação das próximas gerações, o que muitas vezes pode ser sentido como sobrecarga de trabalho. “Ainda estamos nos preparando para trabalhar com temas como fake news, entender como as narrativas se propagam pelo WhatsApp. Essa tarefa tem tudo a ver com a IA, mas a IA parece algo a mais”, pontua Juliana. Portanto, precisamos de formação adequada, defende.
Enquanto trilhas formativas oficiais não chegam, milhares de profissionais da educação vêm se esforçando para adaptarem-se. “O professor brasileiro normalmente trabalha em mais de uma escola, tem várias turmas e fica com pouco tempo para preparar aulas. Contudo, com a IA, consegue aumentar seu repertório de forma mais rápida. As ferramentas podem ajudar a melhorar as ideias”, sustenta Ana Ligia Scachetti, diretora-executiva da Associação Nova Escola.
A Nova Escola também tem realizado pesquisas com docentes acerca do uso de IA. Segundo Ana Lígia, o diagnóstico é positivo. “Nos três primeiros anos, na pergunta ‘Qual é o maior benefício da IA’, a economia de tempo foi o mais citado. Agora, em 2026, pela primeira vez, ‘Ter ideias criativas’ passou na frente. Parece indicar que esses profissionais têm feito usos mais significativos do recurso”, detalha.
Para colaborar com esse esforço, a Nova Escola lançou, ainda em 2024, um agente de IA dentro do WhatsApp. A escolha faz sentido para a realidade nacional, pois a maioria dos professores já está familiarizada com esse aplicativo e o uso é baseado em textos, o que consome poucos dados móveis dos docentes. “É muito intuitivo, porque funciona como uma conversa. O professor diz: ‘Quero trabalhar produção de texto com alunos do terceiro ano’, e vai conversando, contando qual é o contexto da escola, qual habilidade quer desenvolver”, ressalta Ana Lígia.
O agente de IA no WhatsApp, que pode ser usado gratuitamente por todos os professores brasileiros, dá respostas utilizando a base de dados dos planos de aula da Nova Escola. “Somos uma grande biblioteca de planos de aula. Quando surgiu o Chat GPT, entendemos que talvez fosse uma oportunidade de ajudar o professor a adaptar os conteúdos para a realidade dele”, conta a diretora. Há também versões personalizadas, desenvolvidas em parceria com algumas redes de ensino.
Diferentemente do modelo específico da Nova Escola, quando se fala em IA nas escolas do Brasil, normalmente se faz referência à IA generativa dos grandes modelos de linguagem, os LLMs, como ChatGPT, Gemini, Copilot e similares. “Esses modelos não foram concebidos para fins educacionais. Seu desenho tem foco em aumentar a eficiência humana, não em ensinar”, afirma Rosa Vicari, professora de Ciência da Computação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com ênfase em Inteligência Artificial aplicada à Educação.
Além de não protegerem os dados de quem os usa, os LLMs são modelos que “alucinam” (dão respostas erradas garantindo que estão certas) e não são capazes de voltar atrás no seu raciocínio, explicando como chegaram a determinada resposta e qual a origem das informações apresentadas. “Como aprendem com grande quantidade de dados, não têm como voltar para a fonte e dizer ‘tirei isso de tal lugar’”, assegura Rosa, que também coordena a Cátedra da Unesco para educação e tecnologia, da UFRGS.
Em muitos países, a IA nas escolas é uma espécie de tutora que personaliza o ensino. “São executadas com base em conteúdos que passaram por uma curadoria e usam algoritmos que não aprendem com os inputs dos usuários, o que elimina os problemas das alucinações e muitos dos vieses”, informa.
Mesmo que esse modelo de IA–tutor possa parecer assustador para os professores, Rosa garante que não se trata de uma substituição. “A IA foi desenvolvida para detectar lacunas de um estudante e trazê-lo para o nível dos demais, ou para não deixar nenhum aluno parado à espera dos outros. Isto é, personaliza. O professor, por sua vez, vai ter que, cada vez mais, ser um especialista no que ensina, para questionar e ampliar o que a IA traz”, enfatiza.
Em qualquer parte do planeta, os professores precisam entender o que é a IA para saber suas potencialidades e limites. “A IA é preditiva e estatística, mas não tem raciocínio causal e não é imaginativa. Não sabe criar hipóteses sobre algo que não existe, só trabalha com o passado”, adverte a professora. De qualquer forma, ignorar ou proibir não são opções recomendadas.
O medo de que os alunos vão perder certas habilidades tem fundamentos reais, mas o importante é que a escola entenda quais são as habilidades que realmente importam no mundo e que estas, sim, sejam desenvolvidas. “Imagine os nossos ancestrais dos tempos dos caçadores coletores. Eles precisavam ter a habilidade de usar arco e flecha. Hoje, compramos a comida no supermercado. Não saber usar arco e flecha não nos faz menos inteligentes. E quem quiser ainda pode desenvolver a habilidade de usar arco e flecha”, finaliza.