“Tu vens, tu vens/Eu já escuto os teus sinais.”
Esse refrão, adotado por igrejas, times de futebol e campanhas políticas, transformou a canção Anunciação — uma celebração da esperança — em um dos símbolos musicais das tradições nordestinas.
Ao lado de Morena tropicana, Coração bobo, Girassol e La belle de jour, a emblemática criação de Alceu Valença colocou na boca do povo e nas antologias da música brasileira a obra desse pernambucano que eletrificou o repente e o maracatu, misturou rock com frevo e baião e levou o blues para o sertão.
Em São Bento do Una, agreste de Pernambuco, Alceu Paiva Valença nasceu no dia 1º de julho de 1946, na Fazenda Riachão, propriedade de sua família. Ali, entre aboios e toadas de vaqueiros, sob o olhar atento do avô, poeta e violeiro, se forjaria o artista que jamais se afastou de suas raízes. “Não sou filho da bossa nova, nem do tropicalismo. A minha música é o Nordeste ligado na tomada. Sei como me equilibrar numa burrinha de cavalo-marinho”, resumiu o compositor, que fez da própria vida o fio condutor de suas canções.
Aos dez anos, morava com os pais na capital pernambucana, na Rua Palmares, passagem obrigatória dos blocos de frevo, maracatu e caboclinhos nos carnavais do Recife. Sem perder de vista os cantadores de feira de sua cultura rural, tomou contato também com Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, Orlando Silva e Dalva de Oliveira, universo musical urbano que começava a ser invadido pelo magnetismo de Elvis Presley.
Na adolescência, o icônico Cine São Luís — retratado no filme O agente secreto (2025), onde eram exibidos os títulos do neorrealismo italiano e da nouvelle vague francesa — despertou seu interesse pelo cinema, o que mais tarde se traduziria em participação em filmes, como ator e diretor.
Formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Alceu logo abandonou a advocacia para tentar a sorte nos festivais universitários ao lado do conterrâneo Geraldo Azevedo. No início dos anos 1970, no Rio de Janeiro, perambularam pelos meios artísticos até conseguirem gravar o disco Quadrafônico (1972), pelo selo Copacabana, com as primeiras composições de ambos, que iam de pops e baladas a cirandas e maculelês. “Meu primeiro disco, com Geraldo Azevedo, não era meu nem dele. Foi a maneira que encontramos de furar um bloqueio”, como consta no livro-reportagem O fole roncou: uma história do forró (Editora Zahar, 2012), escrito pelos jornalistas Carlos Marcelo Carvalho e Rosualdo Rodrigues.
No mesmo ano, no Festival Internacional da Canção, a embolada Papagaio do futuro foi defendida pelo veterano Jackson do Pandeiro, com quem aprendeu as inflexões, a dividir melhor as palavras e a cantar com mais ritmo. “A partir dele, veio o suingue da minha música”, declara. Também em 1972, o encontro com o compositor e cineasta Sérgio Ricardo levou Alceu à interpretação, ao assumir o papel principal de A noite do espantalho (1974), filmado em Nova Jerusalém (PE). E também participou como cantor da trilha sonora do filme.
A projeção nacional chegou em 1975, com Vou danado pra Catende, misto de coco, repente e martelo com ares de contracultura e os decibéis do rock, que sacudiu o Teatro Municipal de São Paulo durante o Festival Abertura, da TV Globo.
Exibida pelo Fantástico e parte da nova tiragem de seu primeiro disco solo, Molhado de suor (1974), a música e seu autor foram incensados pela crítica. “Nasce uma estrela”, afirmou o jornalista Nelson Motta, secundado, no jornal O Globo, pelo escritor Arthur da Távola: “Pouca coisa pode soar tão brasileira, tão sertão”.
Na década de 1980, as composições de Alceu Valença bateram sucessivos recordes de veiculação nas rádios e em vendagem de discos, arrastando multidões para suas apresentações, como as 30 mil pessoas que o ovacionaram na edição inaugural do festival Rock in Rio, em 1985.
A primeira a explodir nas paradas de sucesso e a grudar no gosto do público foi Coração bobo, misto de toada e baião dedicada a Jackson do Pandeiro. A seguir, viria Como dois animais e Morena tropicana, ambas do disco Cavalo de pau (1982), que ultrapassou a marca de 1 milhão de cópias vendidas.
Interpretação sensual e uma salada de frutas associada a um convite para o amor, no verso de Morena tropicana (“vem me desfrutar”), conquistaram de imediato a participação popular, como nas antigas marchinhas de carnaval.
Morando, a partir de 1981, num casarão colonial no centro histórico da cidade pernambucana de Olinda, foi numa manhã de domingo, improvisando sons na flauta durante um passeio até o Mosteiro de São Bento, que surgiram os acordes da canção destinada a “servir de trilha para bodas e noivados, nascimentos e romances”, segundo Julio Moura, autor de Pelas ruas que andei: uma biografia de Alceu Valença (Companhia Editora de Pernambuco, 2023).
Na inspirada letra, Anunciação mescla o cotidiano das roupas no varal à “voz do anjo” e aos “sinos das catedrais” para cantar o amor que vem chegando.
Saudado por Luiz Gonzaga como “uma banda de pífanos elétrica”, pela presença de guitarra e baixo elétrico no acompanhamento, o som de Alceu fez a música do Nordeste se disseminar definitivamente, como no álbum Maracatus, batuques e ladeiras (1994), que tem Olinda como musa inspiradora.
Se os ritmos são marcadamente regionais, os temas podem ser universais, como em Girassol e La belle de jour. Partindo da pintura de Van Gogh, a repetição “gira, gira, gira, gira, gira, sol” transmite movimento, energia e a busca por calor e paixão.
No século 21, a geração internet ostenta em seus shows vistosos girassóis nos cabelos. E, trazendo a personagem do cineasta Luis Buñuel da França para a praia de Boa Viagem, tornou a sua bela da tarde, com 300 milhões de visualizações no YouTube, mais famosa que o filme protagonizado por Catherine Deneuve.
Em 1996, ao lado de Geraldo Azevedo, Zé Ramalho e Elba Ramalho, participou da série de shows O grande encontro, que percorreu diversas cidades brasileiras e resultou em álbum de grande sucesso. Atravessando o oceano, no ano 2000, Alceu, Geraldo e Elba, com o reforço de Naná Vasconcelos e Moraes Moreira, abrilhantaram o Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça, com o espetáculo Pernambuco em canto: carnaval de Olinda.
No século atual, acentuou seu lado multiartista com mais um filme, desta vez como diretor, e um livro de poesias. A luneta do tempo (2014), musical ambientado no cangaço, com Irandhir Santos e Hermila Guedes como Lampião e Maria Bonita, arrebatou dois troféus Kikito no 42º Festival de Cinema de Gramado, em 2014.
Lançada no ano seguinte, a obra O poeta da madrugada (Editora Chiado, 2015) tem versos melódicos “que reverberam em nós”, de acordo com o prefácio do escritor angolano José Eduardo Agualusa.
Ao completar 80 girassóis de uma vida que parece outro filme, ritmos e versos fundem-se “num HD de lembranças da minha memória visual”, diz Alceu para concluir: “Faço música como quem faz cinema. Gosto das imagens”.